28 de fevereiro de 2012

Por que pedi exoneração

Caros colegas e leitores, é com uma mescla de um sem-número de sentimentos conflitantes, dentre os quais predomina, certamente, o de um alívio muito grande, que torno público meu pedido de exoneração dessa bagaça a que se convencionou chamar o “ensino público” do estado de São Paulo. Razões para isso todos nós temos de sobra, e este espaço vem já há quase quatro anos denunciando algumas delas. A mais recente, e que foi decisiva para mim, foi o ardil com que o governo Alckmin, na pessoa do seu Secretário de Educação Herman Voorwald, logrou driblar a Lei do Piso. Fui professor efetivo da rede desde 2004, e mesmo assistindo ao seu sucateamento sistemático levado a cabo pelo tucanato paulista, ainda tinha a esperança de que a classe docente conseguisse se organizar e lutar pela aprovação de leis que pudessem, senão reverter o quadro que se instalou depois de tanto descaso, ao menos amenizá-lo. No entanto, essa esperança deu seu último suspiro quando o governador “deu o maior pelé” até mesmo no Supremo Tribunal Federal, demonstrando assim a total inutilidade de travar qualquer combate pelas vias democráticas, haja vista que estamos num estado sem lei.

Claro que a isso também se somam, no meu caso, motivos pessoais, como por exemplo ter sido mais uma vez impedido de prestar a prova de mérito ou de pedir remoção, pelo fato de ter estado afastado (sem vencimentos!) até abril do ano passado para concluir meu mestrado (isso é parte do pacote de “incentivos” que o governo oferece para quem quer investir em sua própria formação). Aliás, nunca recebi um centavo a mais pelos cursos de formação continuada da Secretaria da Educação, nem pelo meu mestrado, nem cheguei a ter direito a um quinquênio, e, por estar cursando mestrado, fico impedido até de prestar a prova de mérito. Aí chega o dia da atribuição de aulas e um professor efetivo, há oito anos na mesma Unidade Escolar, formado e pós-graduado numa das melhores universidades do país, com participação em cursos da Rede do Saber e aprovado com excelentes classificações em nada menos que quatro concursos para PEB2, sou obrigado a “pegar” apenas aulas nas 6ªs séries do Ensino Afundamental… Quem conhece a minha escola sabe bem o que isso significa.

Bom, pra mim foi a gota d’água. Haverá, sem dúvida, quem suporte humilhação muito maior, seja por extrema necessidade, seja por comodismo. Alguns são até por incompetência mesmo. Vários colegas me disseram ser preciso muita “coragem” para fazer o que eu fiz. Não penso assim. Acho que “autoestima” é a palavra que vem mais a calhar nesse caso (lembrem-se de Nietzsche: Nunca é alto o preço a se pagar pelo privilégio de pertencer a si mesmo). Quem precisa de coragem mesmo são os que continuam na batalha, e a quem deixo minhas condolências e minha sempre sincera solidariedade.

O blog, espero, continuará de pé, embora talvez sem tanta participação minha. Passo as chaves para outros que estão chegando agora ou que nos acompanham desde o início dessa quixotesca empreitada. Aos que desejarem seguir-me numa nova aventura por ciberespaços nunca dantes navegados, convido a conhecer meu novo blog, que atende pelo nome de Antenna Paranoica. Sigam-me os bons!


11 comentários:

Mateus Malvestio disse...

Ao passo que eu lia, se reproduzia em minha mente aquele tom de voz pausada e cadente com ênfases que só o Mauro sabia fazer...é triste meu colega, mas você expressou aqui a pura realidade, e teve a bravura de fazer o que todos querem mas temem, não sei o porquê, mas temem...

Mauro Bartolomeu disse...

O tom de voz e a leitura pausada eu continuo fazendo, meu amigo, vocês só não me ouvirão mais nos HTPs, que ficarão um pouco menos divertidos rs… Mas qualquer hora eu apareço aí pra gente entoar juntos o nosso “Hino do Professor” heheh.
O que o pessoal teme, meu caro, é a perda da estabilidade. O que eles não veem é que essa “estabilidade” é na verdade uma completa estagnação! Ou, como eu digo, uma “BESTABILIDADE”. É isso. Muito cômodo para o estado garantir uma estabilidade que só te impede de progredir profissionalmente…

Anônimo disse...

Parabéns!!!Sempre achei que a sala de aula te restringia e conhecendo seu temperamento,sei que vc se dará muito melhor em outra atividade que te permita usar seu grande potencial crítico.Boas oportunidades surirão com certeza...Sua amiga e admiradora Eliane (Matão)

Mauro Bartolomeu disse...

Obrigado pela força, Eliane! Bj

Paulinha disse...

Querido amigo..parabéns pela "liberdade"...muito sucesso e continuo contigo..beijos!!

Mauro Bartolomeu disse...

Valeu, querida!

Eder Paulo disse...

Parabéns Mauro, sou professor de Ed.Física da rede estadual, em S.J do rio preto, e como todos tenho a vontade de fazer o que vc fez.

Terra Boa disse...

Preclaro cidadão, pensava apenas eu ser discriminado na SEED. Sou professor efetivo do Estado de São Paulo e por motivo de tratamento de saúde em membro da família estou afastado temporariamente. Quero continuar no magistério porém meu padrão é distante de onde resido. Tento há anos remoção para próximo de onde resido e não consigo. Fiz outro concurso e fui aprovado no mesmo para assumir uma vaga próximo de onde moro. Misteriosamente não estou sendo liberado pelas psicólogas do DPME, provavelmente por não me encaixar no perfil das mesmas, desconsiderando-se o que realmente vale ser levado em conta que é a disposição e aptidão para o trabalho que sempre tive.
Com o veto das ilustres psicólogas do DPME, fica uma interessante questão: se elas não consideram que estou apto para o trabalho, como posso estar sendo professor efetivo?
Outra questão é a via dolorosa que tenho que fazer para deslocar-me até São Paulo. São cerca de 800 km. O gasto é enorme. Cada viagem para lá não sai por menos de R$ 500,00 reais com todas as despesas envolvidas. E chega lá não temos nada em termos de efetividade, de objetividade. São perguntas do tipo "o q vc 'acha' sobre tal assunto?" "vc gosta de 'dar aulas'?" ou ainda "na sua família tem ou teve alguém com 'problema mental'?". Como uma bateria de elucubrações tão vagas podem definir quem é ou não é apto para para o magistério? Ou será que cor do cabelo, vestimenta, calçado, tamanho do cabelo, cor da pessoa, ou tipos e caras influem mais que o ser na decisão das preclaras psicólogas? Infelizmente tenho meu conceito sobre as mesmas. Além é claro, de que o não apto deve ser informado sobre o porque de seu não ingresso.
Não sei que direção meu caso irá tomar, porém uma coisa é fato. o DPME carece de profissionais da área psicológica que conheçam não a palavra, mas o significado da palavra humanidade.
Devo pedir minha exonerção nos próximos dias tbm.
e pode tere certeza de que enquanto ñ tivermos um sindicato que lute pelos desmandos e discriminações cometidos contra nós professores, a coisa não irá mudar, até pq a aberração que é o concurso para diretores, onde muitas vezes o q ñ presta se perpetua no poder, além do descaso muitas vezes de direção e coordenação, além é claro das Diretorias de Ensino, mostra que no ensino paulista instalou-se o salve-se quem puder. Os profesores não efetivos também deveriam ter um mínimo de dignidade e deixarem de prestar favor aos sucessivos desmandos no ensino da Rede. É vil e humilhante o processo para professores temporários. O que era para ser exceção virou regra pois existem milhares de professores que imaginam vão morrer de fome se não pegarem algumas míseras aulas. E o sistema aplaude estes covardes, pois com sua covardia em não ter coragem de dizer não para aulas temporárias, o caos se aprofunda.
Td de bom prá ti.
Roderlei

Mauro Bartolomeu disse...

Caramba, Roderlei, a situação q vc descreve ultrapassa as raias do kafkiano. Já procurou apoio jurídico do sindicato? Desejo-te boa sorte, amigo. E mto obrigado pelo depoimento.

Anônimo disse...

Olá, pedi exoneração no final de julho de 2013 e me sinto leve, tirei um peso das minhas costas, a auto estima está mais elevada... Recomendo a todos que estão descontentes... A melhor coisa é tentar outras alternativas... Não se prendam na questão da estabilidade... O que adianta se tem que ir se arrastando para trabalhar todos os dias... O trabalho tem que ser o mínimo prazeroso...

Mauro Bartolomeu disse...

A quem exonerou, a quem pretende exonerar e a quem gostaria de exonerar mas não pode, sugiro a leitura do texto q acabo de postar: "Pôr fogo em tudo, inclusive em mim": desistência DO trabalho e desistência NO trabalho.