28 de julho de 2008

Um Relato Pessoal

No último dia 11, data oficial do Conselho bimestral para todas as escolas do Estado, fui convidado a depor na Diretoria da escola em que leciono há quatro anos. Presentes as professoras coordenadoras, a vice-diretora e a diretora, pela qual fui questionado acerca do alto índice de notas vermelhas em minha disciplina. Bem, todos sabemos que a educação é um processo que depende do professor, mas não apenas dele. Admito que as notas dos meus alunos mostram, sim, o meu fracasso, mas não a minha incompetência. Esclareci que os alunos aos quais atribuí um conceito abaixo da média foram aqueles que simplesmente não fizeram as atividades avaliativas exigidas ao longo do bimestre, além do que quase todos esses alunos tinham notas vermelhas em várias outras disciplinas também. Como a minha coordenadora, ao ser questionada, concordou com minha declaração, a diretora passou então a criticar minha postura em sala de aula e a indisciplina generalizada dos meus alunos.
Começou dizendo que eu poderia ser um ótimo professor universitário, mas que nossos alunos não têm maturidade para acompanhar minhas aulas. O elogio mal disfarça a repreensão, pois não se trata de me declarar possuidor de um alto nível intelectual, mas sim de me declarar culpado por tratar meus alunos como adultos. A solução, para ela, é ser mais rígido e não dar nenhum tipo de liberdade a eles, com o que muitos professores, compreensivelmente, concordam. O problema é que quem não tem liberdade não pode ter responsabilidade, e dessa maneira é o professor novamente o responsável por tudo o que acontece dentro da escola. Tenho todo o direito de não concordar com essa tese, que aliás apenas reproduz, no âmbito do micropoder, o discurso da Secretaria da Educação.
Engraçado que quando se propõe, ao contrário, que a direção participe mais ativamente nas questões de disciplina, a resposta também já vem pronta: o professor perde sua autoridade quando apela para instâncias superiores (inspetores e gestores). Concordo com o argumento, mas me parece que ninguém apela para essas instâncias se sua própria autoridade já não tiver sido questionada. Além disso, se a direção acompanhasse com mais interesse o comportamento dos alunos que o dos professores, talvez as condições gerais de trabalho melhorassem substancialmente. Afinal de contas, o gestor não precisa esperar ser acionado pelos seus subordinados para monitorar as salas de aula, já que zelar pela disciplina é uma de suas atribuições legais. Sendo assim, o discurso da diretora quase equivale a uma declaração de recusa em cumprir suas funções.
Notem, além disso, como o discurso é contraditório: segundo ele, eu devo ser mais rígido com meus alunos porque eles são indisciplinados, mas ao mesmo tempo devo ser mais complacente na hora de avaliá-los. Quer dizer, minha obrigação enquanto professor é impor aos alunos uma lei cuja desobediência não implica nenhuma sanção, e absurdamente zelar para que eles a cumpram. A despeito dessa falta de coerência, fui coagido a assinar a ata em que me comprometo a me emendar. Mas tudo bem, pelo menos não tive que ajoelhar no milho.
Essa história ainda tem uma moral. Esse ano foi aprovada a Lei 52.719, cujo texto poderia começar assim: “institui a Aprovação Automática no Ensino Médio e dá outras providências”. Afinal, ela estabelece que o governo possui recursos para conceder aumento salarial à categoria, mas que prefere distribuir o montante privilegiando as escolas que aprovarem mais alunos, passando por cima do princípio da isonomia. Como essa lei, muito inteligentemente, estabelece um critério coletivo de avaliação, podemos seguramente esperar sofrer cada vez mais pressão para elevar artificialmente o percentual de aprovações, sob pena de sofrermos cortes em nossas bonificações de final de ano. Vai ser um professor vigiando o outro, e o governo punindo a todos. Valhei-nos, São Foucault!

4 comentários:

Anônimo disse...

Somos uns heróis - trabalhamos sem apoio nenhum muitas vezes da direção. Quando realmente poderemos dar a nota justa e necessária de acordo com o saber do aluno. Devemos viver o carpe diem porque o futuro meu amigo ( que futuro??) é obscuro. Espero vocês no meu blog marebrisadosaber blogspot.com Abraços Mariza Schiochet

Dynah Gerloff disse...

Precisamos sim, de apoio da direção e não de alguém que faça críticas ao nosso trabalho, ainda mais se esse alguém não acompanha de perto o que fazemos em sala de aula.
E quanto à disciplina em sala de aula, eu como professora de séries iniciais, tenho como dever não só passar os conteúdos, mas mostrar ao aluno o que a vida lhe espera se seguirem seus caminhos sem disciplina.

Anônimo disse...

Colóquio flácido para acalentar bovino

Beilfuss disse...

Grande mestre!!

Posso levar tuas palavras até a minha escola? Parece até que eu estou falando isso, ou melhor, parece que eu estou relatando. Minha situação é igual a sua. Risadas de indignação..

Prof. Fabio