25 de março de 2010

A greve dos professores é política?

Os que afirmam que a greve dos professores é política merecem uma resposta desse despretensioso blog. Em primeiro lugar, como diz Paulo Freire, que aliás faz parte da bibliografia exigida em todos os concursos para professor, não é possível existir sem assumir o direito e o dever de optar, decidir, lutar, enfim, de fazer política. Mas não é disso que se trata. Os que acusam a greve de ser "política" querem com isso dizer que ela atende apenas a interesses partidários. Mas essa afirmação, ela própria, não atende apenas a interesses tucanos?

Os tucanos pretendem desqualificar a greve, fingindo que não existem senão razões partidárias para a mobilização dos docentes. Para eles, nossas reivindicações são apenas invencionices de ano eleitoral. Contra essa mentira absurda não basta dizer que muitos dos grevistas não são petistas, ou sequer lulistas, pois aí poderiam me responder que eles estão sendo apenas “massa de manobra”. Não há dúvida de que quem deflagra uma greve é sempre um grupo pequeno de pessoas, geralmente bastante conscientes das suas consequências políticas. Mas a adesão em massa por parte de qualquer categoria só é possível se as condições de trabalho forem muito ruins para toda ela, pois todos conhecem as dificuldades de se deflagrar e de sustentar uma greve.

É óbvio que ao nos contrapormos às ações e à ideologia de um determinado grupo ou partido não estamos automaticamente “tomando o partido” dos seus adversários, a não ser por questões práticas (leia-se eleitorais). No caso em questão, a rejeição do tucanato paulista tende a nos conduzir à aprovação de algum dos seus rivais, seja o partido de maior expressão nacional da “esquerda light”, sejam outros mais radicais e literalmente “menos votados”. Mas isso não desqualifica o movimento. Pelo contrário, apenas mostra que também sabemos utilizar os instrumentos democráticos na nossa luta.

Agora, fazendo um balanço realista das políticas educacionais estaduais e as federais dos últimos anos, não me parece haver dúvida da superioridade das sancionadas pelo presidente Luís Inácio da Silva, vulgo Lula Lelé. Não foi ele, aliás, que aprovou uma tal de Lei do Piso Salarial? E quem é o maior detrator dessa lei senão José Serra? Também tenho minhas ressalvas quanto à nova função do ENEM, mas ninguém pode negar que ele, assim como o PRÓ-UNI, têm sido iniciativas das mais significativas já feitas no nosso país para os menos favorecidos. E sim, a última aplicação do ENEM foi um desastre, mas a falha foi na execução, e não na intenção; já a distribuição de um caderninho mal feito e cheio de falhas, no intuito de uniformizar o currículo e usurpar sorrateiramente a autonomia das escolas e dos professores, não é falha: é perversa (diga-se de passagem que Paulo Renato chegou a declarar que pretendia dar ênfase à diversificação do ensino médio…). O mesmo se diga da tal “valorização pelo mérito”. Ghiraldelli afirmou que ela é “boba”, porque ao invés de melhorar as condições de todos os professores, terá como resultado a desarticulação da categoria, pois só produzirá mais desigualdade. Sua análise é precisa, mas discordo que essa política seja “boba”. Muito pelo contrário, ela é muito é esperta e maquiavélica!

O governador, que vem sistematicamente usurpando da classe docente inúmeros direitos adquiridos (basta acompanhar este blog desde que foi criado, em 2008) afirma que os gastos (ele contabiliza como gasto, não como investimento) com a folha de pagamento da secretaria de educação subiram de 7,8 para 10,4 bilhões de reais (33% de aumento) de 2005 a 2009, mas não informa onde esses recursos foram alocados exatamente, já que aumento salarial real não chegou a 5%. Cadê a transparência?

Não sou lulista nem dilmista, mas diante do quadro exposto não é possível não ser anti-serrista.

2 comentários:

Mauri disse...

Eu vou fazer um muro anti-serra na minha casa. Com dizeres: Nao voto Serra, não Voto Alckmin, ou coisa parecida. Vou fazer uma camiseta anti serra e um colante pra colocar no carro. É isso ai, todos contra o Serra. Li em algum lugar que ele disse que servidor público estadual nao influencia eleições. Temos que mostrar a ele se influenciamos ou não. Ou vamos deixar ele ter razão?

Mauro Bartolomeu disse...

Tem razão, Mauri, não se trata mais de lulismo ou petismo, mas de anti-serrismo.