2 de fevereiro de 2010

Pelo visto, 2010 promete...



Recomeçam os ataques tucanos ao professorado paulista.

Publicado no Diário Oficial do Estado do último dia 23, a Resolução SE 8 “dispõe sobre a classificação de docentes e candidatos à contratação temporária etc.” e altera o caráter eliminatório da famigerada “provinha” dos temporários, que passou a ser apenas classificatória. Isso significa que todos manterão seus vínculos empregatícios, independemente da nota obtida na dita “avaliação”. A APEOESP assegura que é uma grande conquista da classe, mas isso não corresponde bem à verdade. Realmente, o resultado mais imediato quase equivale a uma anulação da terrível provinha. Mas traz duas consequências nefastas à educação estadual. Primeira, as condições de trabalho dos professores não vão melhorar. A alteração do caráter da prova decorre do fato simples e inegável de que há poucos profissionais bem preparados dispostos a se submeter às condições impostas na rede pública estadual. A Secretaria manterá os professores temporários porque necessita deles, e não por reconhecer que cometeu um erro. Segunda, a classe docente sai mais uma vez ridicularizada e diminuída diante da opinião pública. A tal provinha, preparada por pessoas que provavelmente não fazem ideia do que seja uma curva de Gauss, não serviu apenas para jogar fora dinheiro dos “contribuintes”. Serviu também para expor os professores ao ridículo e para fazer com que mais uma vez recaia sobre eles toda culpa pelas mazelas do nosso sistema educacional. Notem que nem entrei no mérito da “longa lista de irregularidades e erros grosseiros” do processo de avaliação, que já é pano para várias mangas.

Não pensem que as avaliações terminarão. Quem se inscreveu no concurso para PEB II, se teve a pachorra de ler as “letras miúdas”, teve de declarar “sob as penas da lei” que está “ciente da habilitação e qualificação para o cargo de Professor Educação Básica II” e que, “no caso de vir a exercê-lo”, estará “sujeito a avaliação pelo desempenho dessas qualificações para fins de habilitação no período probatório”. Aguardem novidades.

Enquanto isso, o Excelentíssimo Senhor José Serra vetou, no último 15, o PLC 81 de 2007, de autoria do deputado Roberto Felício (PT), que revogava o maldito inciso I do artigo 242 da Lei 10.261 (Estatuto dos Funcionários Públicos), a chamada LEI DA MORDAÇA (vale lembrar que a revogação dessa lei foi uma das suas promessas de campanha…). Sendo assim, qualquer funcionário público que se “referir depreciativamente às autoridades constituídas” pode vir a ser exonerado “a bem do serviço público”. Serra justificou o veto alegando “ordem estritamente jurídica”, considerando que matérias “atinentes a servidor público e seu regime jurídico, em sentido amplo, inserem-se na competência legislativa privativa do Governo do Estado”. Em outras palavras, o governador se declara sem competência para aprovar o projeto. Sob ameaça de ser exonerado, só posso mui respeitosamente concordar com o parecer do governador.

22 de janeiro de 2010

Secretaria lança Edital para o Concurso de PEB II

O famigerado sítio "é do cacau" diz que a Secretaria lançou o edital do concurso, mas não traz nenhum linque para chegar até ele. Mas este blog faz isso para você: acesse o edital AQUI! A data de realização das provas ainda não foi divulgada.
As inscrições vão de 27 de janeiro a 11 de fevereiro, e devem ser feitas no sítio da Fundação Carlos Chagas. A taxa é de R$ 27,25, e estudantes que tenham remuneração mensal inferior a dois salários mínimos ou que estejam desempregados poderão pedir 50% de isenção (as solicitações devem ser feitas do dia 27 a 29 de janeiro, no mesmo sítio).
Então acorda e vai estudar, cambada!!! O Haiti não é aqui!

1 de janeiro de 2010

Concurso para Peb II

No Diário Oficial do Estado de São Paulo do último dia 25 de dezembro foram publicadas as Instruções Especiais para o Concurso de Provas e Títulos para provimento de 10.083 vagas para as disciplinas de Arte, Biologia, Ciências Físicas e Biológicas, Educação Física, Filosofia, Física, Geografia, História, Inglês, Língua Portuguesa, Matemática, Química, Sociologia e Educação Especial – Deficiências Auditiva, Física, Mental e Visual, um presentão de Natal para os aspirantes a professor da rede pública (por incrível que possa parecer, eles ainda existem! Basta lembrar que dos 210.000 docentes da rede estadual, 80.000 ainda não são efetivos).

Todos os sítios eletrônicos pesquisados dizem que o edital deve ser publicado “em breve”, mas isso é dito há vários meses, e até agora nem sombra dele. A Fundação Carlos Chagas, responsável pelo concurso, diz que ele será publicado “oportunamente”. Seja como for, a prova, que deverá constar de 80 questões, deve ser realizada em março, mas o ingresso se dará apenas em 2011, porque o professor agora deverá passar por um curso de formação com duração de 4 meses, com carga horária de 20h semanais, período durante o qual receberá 75% do salário inicial. Como a Instrução DRHU-2 de 11/11/2009 criou a nova “jornada reduzida”, de 12h semanais, para a qual o professor receberá R$451,65 (menos que um salário mínimo!), chega-se à incrível importância de R$338,73 para esses docentes durante os meses de treinamento obrigatório.

Para conseguir essa mamata, o candidato precisa mexer o seu traseiro gordo e dar pelo menos uma lida em 15 livrinhos específicos da sua área, caso não o tenha feito durante seu curso de graduação, e mais 20 de formação básica, aos quais se somam algumas leis (os perfis e as bibliografias completas constam da Resolução SE 80 de 3/11/2009). Seguem abaixo alguns dos documentos de leitura obrigatória que estão disponíveis na internet:

BRASIL. MEC. DCNs do Ensino Médio.

Parecer 15/98.

BRASIL. MEC/INEP. Fundamentos teórico-metodológicos do ENEM.

BRASIL. MEC/INEP. IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica).

BRASIL. MEC/INEP. Prova Brasil e o SAEB.

BRASIL. MEC/SEF. Parâmetros Curriculares Nacionais. Introdução. Terceiro e Quarto Ciclos do Ensino Fundamental.

SÃO PAULO (Estado) Secretaria da Educação. Proposta Curricular do Estado de São Paulo para o ensino Fundamental Ciclo II e Ensino Médio: Documento de Apresentação.

Boa Prova!

29 de dezembro de 2009

Inscrições Abertas para o Programa de Valorização pelo Mérito

Aí, vagabundada! Estão abertas, até dia 7 de janeiro, as inscrições para a prova de promoção salarial. O quê? Férias? Por acaso você não viu o tamanho da bibliografia? Pois é. Mas isso não é pra quem quer, é só pra quem pode. Primeiro, você precisa ter cumprido o interstício mínimo de 4 anos ou 1460 dias. Se você ingressou depois de 2006, relaxa, você ainda tem que ralar muuuito… Você também precisa ter trabalhado pelo menos 1168 desses dias na mesma escola! Se você é professor temporário, que fica correndo pra lá e pra cá, esqueça! Pode descansar! E também é preciso ter ganho pelo menos 2304 pontos na tabelinha de assiduidade (abaixo), que funciona basicamente assim: se você teve uma média de 5 faltas por ano, em meses diferentes, pode esquecer, seu vagabundo! Tá fora! Vai curtir as férias! Pois bem, as provas ocorrerão nos dias 31 de janeiro (apoio pedagógico), 1º de fevereiro (professores de 5ª a 8ª séries) e 2 de fevereiro (professores de 6ª a 9ª séries e Ensino Médio), então você tem 1 mês para ler aí mais ou menos uns 30 livros, moleza. A prova será dividida em duas partes: a primeira será composta de 60 questões objetivas (mais conhecidas como “de xisinho”) sobre a formação específica, e a segunda, uma questão dissertativa sobre formação pedagógica. Cada parte será avaliada de 0 a 10, e a nota final do candidato será a média da soma das duas. Você precisará tirar no mínimo 6 se quiser ganhar aumento esse ano, lembrando que ele só será dado a no máximo 20% dos professores. Ainda bem que esse Programa de Valorização do Mérito não vai avaliar a qualidade das aulas, senão tava todo mundo fudido! Então, se você aguentou os últimos quatro anos sem ter nenhuma falta médica, se compareceu todos os dias, mesmo com aquela enxaqueca, tudo o que você tem a fazer agora é abdicar das férias, rachar de estudar, garantir uma boa nota na prova, acender uma vela para o santo da sua devoção e rezar bastante para ficar entre os 20%. Boa prova!

Confira o edital.

Tabelinha de assiduidade - confira quantas estrelinhas você ganhou!

Tabela de frequência
030+30 especiais1614
1291713
2281812
3271911
4262010
525219
624228
723237
822246
921255
1020264
1119273
1218282
1317291
1416300
1515Mais de 300

10 de novembro de 2009

Corrupção Discreta



Todos já devem estar sabendo que tramita no Congresso um projeto de lei do senador Cristovam Buarque que determina a obrigatoriedade de todo político eleito matricular seus dependentes em escolas públicas. Trata-se do Projeto de Lei nº 480, de 2007 (clique para acessar a íntegra do projeto e sua tramitação). Não acredito que ele venha a ser aprovado, mas quero destacar um trecho da sua justificativa:

“Talvez não haja maior prova do desapreço para com a educação das crianças do povo do que ter os filhos dos dirigentes brasileiros, salvo raras exceções, estudando em escolas privadas. Esta é uma forma de corrupção discreta da elite dirigente que, ao invés de resolver os problemas nacionais, busca proteger-se contra as tragédias do povo, criando privilégios.

Além de deixarem as escolas públicas abandonadas, ao se ampararem nas escolas privadas, as autoridades brasileiras criaram a possibilidade de se beneficiarem de descontos no Imposto de Renda para financiar os custos da educação privada de seus filhos.

Pode-se estimar que os 64.810 ocupantes de cargos eleitorais – vereadores, prefeitos, vice-prefeitos, deputados estaduais, federais, senadores e seus suplentes, governadores e vice-governadores, Presidente e Vice-Presidente da República – deduzam um valor total de mais de 150 milhões de reais nas suas respectivas declarações de imposto de renda, com o fim de financiar a escola privada de seus filhos […] considerando apenas um dependente por ocupante de cargos eleitorais.”

28 de outubro de 2009

Aprovado o PLC 29/2009

Como todos já sabem, na madrugada do último dia 21 foi aprovado na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo o famigerado PLC 29, que institui definitivamente a inexistência de um plano de carreira para o quadro do magistério, já que apenas 20% dos professores poderão passar da faixa 1 para a 2 já no próximo ano, apenas 4% (quer dizer, 20% dos 20% que atingirem a faixa 2) para a faixa 3 daqui a 3 anos, 0,8% (20% dos 4% da faixa 3) para a faixa 4 daqui a 6 anos e nada mais que 0,16% para a faixa 5 (isso no máximo...), somente daqui a 9 anos! Essa é a definição tucana de "aumentos salariais reais". O projeto foi aprovado por 48 votos contra 21, sendo que foram rejeitadas todas as 25 emendas propostas (a íntegra do PLC 29/2009, das 25 emendas e da sua tramitação estão disponíveis no Portal da Assembleia).

Deputados que votaram SIM ao PLC 29 e contra os professores

DEM
Edmir Chedid
Estevam Galvão
João Barbosa de Carvalho
Milton Leite Filho

PDT
José Bittencourt
Rogério Nogueira

PMDB
Baleia Rossi
Jorge Caruso
Uebe Rezeck
Vanessa Damo

PP
Mozart Russomano

PPS
Alex Manente
Davi Zaia
Roberto Morais
Vitor Sapienza

PRB
Gilmaci Santos
Otoniel Lima

PSB
Ed Thomas
Jonas Donizette
Luciano Batista
Marco Porta
Vinícius Camarinha

PSC
Said Mourad

PSDB
Analice Fernandes
Bruno Covas
Cassio Navarro
Celino Cardoso
Celso Giglio
Fernando Capez
Geraldo Vinholi
Hélio Nishimoto
José Augusto
João Caramez
Maria Lucia Amary
Mauro Bragato
Milton Flávio
Paulo Barbosa
Pedro Tobias
Roberto Massafera
Rodolfo Costa Silva
Samuel Moreira
Vaz de Lima

PTB
Campos Machado
Roque Barbieri
Waldir Agnello

PV
Camilo Gava
Edson Giriboni
Reinaldo Alguz

Deputados que votaram a favor dos docentes

PCdoB
Pedro Antonio Bigardi

PDT
Olímpio Gomes

PSOL
Carlos Giannazi
Raul Marcelo

PT
Adriano Diogo
Ana Perugini
Antônio Mentor
Beth Sahão
Carlinhos Almeida
Donisete Braga
Enio Tatto
Fausto Figueira
José Cândido
José Zico Prado
Marcos Martins
Maria Lúcia Prandi
Roberto Felício
Rui Falcão
Simão Pedro
Vanderlei Siraque
Vicente Cândido

2 de outubro de 2009

Sobe para 51 mil o total de crianças analfabetas em São Paulo

O Estado de São Paulo registrou um aumento no número de crianças e adolescentes analfabetos, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) 2008, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) na semana passada. O levantamento aponta que subiu de cerca de 56 mil, em 2007, para aproximadamente 79 mil, em 2008, o total de crianças entre 8 e 9 anos que não sabem ler nem escrever. Na faixa etária dos 10 aos 14 anos, esse número saltou de cerca de 29 mil para 51 mil. Estão incluídos nos dados tanto crianças matriculadas nas redes de ensino como as que estão fora da escola.

Em relação ao total da população nessa faixa etária, 5,9% das crianças de 8 e 9 anos moradoras do Estado não estavam alfabetizadas em 2008 – o porcentual em 2007 estava em 4%. Na faixa etária seguinte, entre 10 e 14 anos, quando elas deveriam estar cursando a segunda etapa do ensino fundamental, há um crescimento de 0,8% para 1,5%.

Fonte: Blog Palavra da Presidenta (APEOESP)

9 de setembro de 2009

Manifestação de professores deixa oito feridos no Rio

Engraçado, no Rio de Janeiro professores entraram em confronto com a Polícia em protesto contra o recente projeto que, com o pretexto de incorporar ao salário-base uma gratificação criada na gestão de Garotinho, reduz de 12 para 7,5% o adicional por tempo de serviço (o famigerado quinquênio, agora sem trema). No estado de São Paulo, esse adicional é de apenas 5% (de acordo com o artigo 127 da lei 10.261) e ainda vamos ganhar um plano de carreira que só beneficiará um quinto dos professores, na melhor das hipóteses. Mas aqui professor não tem tempo para lutar por seus direitos – já vão estar muito ocupados tentanto juntar pontinhos para concorrer ao prêmio.

5 de setembro de 2009

Destrinchando o PLC 29/09






Com vistas às próximas eleições presidenciais, o governador José Serra agora inventou de propor um plano de carreira para os docentes estaduais, coisa que há muitos anos era reivindicada pela categoria. O detalhe é que, como continua alegando não dispor de recursos suficientes para remunerar dignamente os servidores do quadro do magistério, bolou um sisteminha engana-trouxa que merece ser lido com bastante atenção. Como estou afastado para fazer mestrado, tive a pachorra de lê-lo na íntegra para facilitar a vida dos professores, que não têm tempo para se dedicar a mais esse imbróglio.

O projeto de lei nº 29 não prevê um plano de carreira aplicável a todos os docentes, ao contrário do que a classe poderia desejar. Em primeiro lugar, nem todos os professores terão direito a prestar a prova, mas apenas os que tiverem permanecido na mesma U.E. por pelo menos 80% do tempo de interstício exigido para ir de uma faixa a outra (4 anos para ir da faixa 1 para a 2, e 3 anos para as demais), e tiverem pelo menos 80% dos pontinhos possíveis numa tabela de frequência que ainda vai ser estabelecida por algum decreto. É claro que quem usar suas faltas abonadas, precisar de licença saúde, tirar licença-prêmio ou requerer afastamento para cursar pós-graduação, estará automaticamente eliminado do processo seletivo (os tucanos chamam a isso de “incentivo” aos professores).

Em segundo lugar, o parágrafo 4º do artigo 4º deixa bem claro que apenas serão aprovados no máximo 20% do contingente total (o que significa que também pode não ser aprovado nenhum docente, caso nenhum obtenha a nota mínima exigida). O artigo 5º estabelece as notas mínimas para mudança de faixa: 6 (numa escala de 0 a 10) para a segunda faixa; 7 para a terceira; 8 para a quarta e 9 para a quinta (respeitados os interstícios mínimos, que somam 13 anos da primeira à última faixa). Mas, como acabamos de ver, não basta se sair bem na prova para conseguir a promoção; é preciso também que os outros se saiam muito mal, pois mesmo que todos consigam alcançar o desempenho exigido, apenas os 20% que tiverem as melhores pontuações serão promovidos (em caso de empate, os que tiverem mais tempo de casa e em seguida os que tiverem maior assiduidade, para variar).

Em resumo, o PLC 29 é uma maneira hábil de dar continuidade à política de bônus da ex-secretária Maria Helena. Se aprovado, consolidará a extinção de uma série de direitos adquiridos, como as faltas médicas, as ausências abonadas e a licença-prêmio, e aumentará a disparidade entre os docentes, o que só pode ter como resultado uma deterioração ainda maior do trabalho em equipe. Qualquer proposta consistente de plano de carreira deve dar, senão as mesmas condições, pelo menos as mesmas oportunidades para toda a classe. O PLC 29 afronta abertamente o princípio da isonomia ao estabelecer um plano de carreira que só atenderá a 20% dos docentes. Paulo Renato está tratando os professores como crianças que, se se comportarem bem, ganham estrelinha, e se juntarem bastantes estrelinhas, ganham um aumentinho na mesada. Quem não acha isso revoltante, bem... pode ir começando a juntar as suas.

Leia a íntegra do PLC 29/2009 SEE/SP.

1 de setembro de 2009

Flagrante de erro de Português

Saudações, esse eu não podia deixar de postar. Ao sair de uma das escolas em que dou aula encontrei mais uma "pérola" de nossos alunos, além do ato de vandalismo em si, um flagrante de ataque ao nosso idioma:

18 de agosto de 2009

Debate com a Secretaria

Frequentemente recebo emails relembrando os famosos erros das apostilas da Secretaria da Educação, como o mapa com dois Paraguais e o “encino” com “c”. Engraçado é que se dá um destaque enorme para essas gralhas, que são apenas problemas de digitação ou de impressão, e pouco se criticam problemas bem mais graves presentes no material. Ninguém se lembra de criticar, por exemplo, a falta de uma concatenação clara dos conteúdos, o reduzido número de aulas reservado para cada unidade, a ideologia transmitida implicitamente pelos textos ou mesmo erros conceituais, como este que detectei no “jornal do aluno”. Segue-se o enunciado da questão:

Uma professora do 1º ano do Ensino Médio perguntou na avaliação:

“Em quais circunstâncias o provérbio ‘Onde há fumaça, há fogo’ pode indicar um processo de comunicação?”

A resposta de Juca foi: “A fumaça comunica, para quem a vê, a presença do fogo. Ou seja, alguém precisa ver a fumaça para que ela comunique a presença do fogo. Nesse caso, há um processo de comunicação.”

A resposta de Maiara foi: “Esse provérbio nunca poderá indicar um processo de comunicação! A fumaça não comunica nada, visto que ela não pensa. A pessoa olha a fumaça e é a pessoa que comunica: “A coisa está pegando fogo!”

A resposta de Elias foi: “Sim, porque a fumaça deseja conversar com o fogo. Temos que soltar a imaginação e pensar que a fumaça também pode ter sentimentos. Na imaginação, a fumaça comunica tudo o que sente...” Em sua opinião, qual dos alunos acertou a questão? Explique.

Segue-se abaixo meu debate com os “especialistas” da Secretaria.

16/2/2008 02h45

Aos responsáveis pela elaboração do material didático de recuperação para o Ensino Médio.

Além de erros gramaticais de pequena importância, há um erro crasso de Lingüística na “aula 5” do jornal da 1ª série (que é a mesma questão da “aula 13” da 2ª e 3ª séries). A resposta contida na revista aponta como correta a afirmativa de Juca, segundo o qual a fumaça comunica a presença do fogo. Porém qualquer lingüista sabe que a resposta correta foi a de Maiara, para quem não há comunicação nesse caso. A comunicação pressupõe a intenção comunicativa. A fumaça não é um signo (na terminologia saussereana), mas um índice. Precisamente esse exemplo é usado por Edward Lopes (Elementos de Lingüística Contemporânea, Cultrix, p.43), que é taxativo a esse respeito: “...em nenhum desses casos existe comunicação, no sentido estrito da palavra”.


04/03/08 14:55

Prezado Mauro,

“O termo comunicação tem sido objeto de numerosas definições que dependem das diferentes disciplinas relacionadas” (Dicionário de Análise do Discurso, Contexto, 2004, p. 103).

Dentro dos domínios específicos da lingüística, o professor tem razão. Mas, como nos diz o mesmo dicionário, “filiada à teoria da informação, continua a desenvolver-se uma concepção do tudo é comunicável, dado que o que é considerado é apenas o fenômeno de transmissão de uma mensagem de uma fonte A para um receptor B” (p. 105).

De qualquer forma, achamos importante rever a resposta dada na Revista para uma próxima edição, abrindo a possibilidade para o desenvolvimento de uma resposta mais completa.

Atenciosamente,

Equipe de suporte - São Paulo faz escola


5/3/08 04h25

Senhores, agradeço pela forma atenciosa com que me responderam, e embora eu saiba que não é este o melhor espaço para entrar em debates técnicos, sinto-me tentado a insistir ainda uma vez na defesa do meu ponto de vista. Admito desconhecer o referido dicionário, e não discordo absolutamente da sua redação, pelo menos no que concerne ao trecho transcrito pelos Senhores. Ocorre que não vejo de maneira alguma como esse trecho pode corroborar a tese sustentada no V. material didático. O trecho afirma que “tudo é comunicável”, do que não discordo, em tese; mas não afirma que tudo pode comunicar, o que é bem diferente, convenhamos. E o corolário é que “o que é considerado é apenas o fenômeno de transmissão de uma mensagem de uma fonte A para um receptor B”, mas isso não implica de maneira alguma a possibilidade da ausência de uma intenção comunicativa nessa fonte, independentemente de como possamos definir essa intenção (não entrarei em detalhes). Particularmente, comentei com meus alunos que a fumaça até poderia transmitir uma mensagem se houvesse alguém tentando se comunicar com sinais de fumaça, ou ter feito uma fogueira para ser localizado, por exemplo, mas não no caso expresso no provérbio. Expliquei a eles o esquema de comunicação de Jakobson, e comentei que a fumaça, nesse outro caso, seria o canal, mas nunca o emissor de uma mensagem (e que tampouco o fogo poderia sê-lo). Tive o cuidado de não revelar que a resposta do material é outra, para não desaboná-lo perante eles.

Senhores, não sou leigo na Teoria da Informação e conheço até os rudimentos da Cibernética, mas não vejo porque sair do âmbito da Lingüística, se a disciplina por mim lecionada é Língua Portuguesa. Se eu estiver errado, peço perdão aos Senhores. Mas rasgo o meu diploma.

Abraço cordial.


26/03/08 16:54

Prezado(a) Senhor(a) Mauro

Em atenção ao seu e-mail, agradecemos a participação e informamos que ele foi encaminhado ao setor competente da CENP - Coordenadoria de Estudos e Normas Pedagógicas, para conhecimento e manifestação.

Pedimos a gentileza de aguardar o retorno.

Atenciosamente

Central de Atendimento


Estou aguardando até hoje, pois o “setor competente da CENP” achou melhor não se manifestar.