No último dia 11, data oficial do Conselho bimestral para todas as escolas do Estado, fui convidado a depor na Diretoria da escola em que leciono há quatro anos. Presentes as professoras coordenadoras, a vice-diretora e a diretora, pela qual fui questionado acerca do alto índice de notas vermelhas em minha disciplina. Bem, todos sabemos que a educação é um processo que depende do professor, mas não apenas dele. Admito que as notas dos meus alunos mostram, sim, o meu fracasso, mas não a minha incompetência. Esclareci que os alunos aos quais atribuí um conceito abaixo da média foram aqueles que simplesmente não fizeram as atividades avaliativas exigidas ao longo do bimestre, além do que quase todos esses alunos tinham notas vermelhas em várias outras disciplinas também. Como a minha coordenadora, ao ser questionada, concordou com minha declaração, a diretora passou então a criticar minha postura em sala de aula e a indisciplina generalizada dos meus alunos.
Começou dizendo que eu poderia ser um ótimo professor universitário, mas que nossos alunos não têm maturidade para acompanhar minhas aulas. O elogio mal disfarça a repreensão, pois não se trata de me declarar possuidor de um alto nível intelectual, mas sim de me declarar culpado por tratar meus alunos como adultos. A solução, para ela, é ser mais rígido e não dar nenhum tipo de liberdade a eles, com o que muitos professores, compreensivelmente, concordam. O problema é que quem não tem liberdade não pode ter responsabilidade, e dessa maneira é o professor novamente o responsável por tudo o que acontece dentro da escola. Tenho todo o direito de não concordar com essa tese, que aliás apenas reproduz, no âmbito do micropoder, o discurso da Secretaria da Educação.
Engraçado que quando se propõe, ao contrário, que a direção participe mais ativamente nas questões de disciplina, a resposta também já vem pronta: o professor perde sua autoridade quando apela para instâncias superiores (inspetores e gestores). Concordo com o argumento, mas me parece que ninguém apela para essas instâncias se sua própria autoridade já não tiver sido questionada. Além disso, se a direção acompanhasse com mais interesse o comportamento dos alunos que o dos professores, talvez as condições gerais de trabalho melhorassem substancialmente. Afinal de contas, o gestor não precisa esperar ser acionado pelos seus subordinados para monitorar as salas de aula, já que zelar pela disciplina é uma de suas atribuições legais. Sendo assim, o discurso da diretora quase equivale a uma declaração de recusa em cumprir suas funções.
Notem, além disso, como o discurso é contraditório: segundo ele, eu devo ser mais rígido com meus alunos porque eles são indisciplinados, mas ao mesmo tempo devo ser mais complacente na hora de avaliá-los. Quer dizer, minha obrigação enquanto professor é impor aos alunos uma lei cuja desobediência não implica nenhuma sanção, e absurdamente zelar para que eles a cumpram. A despeito dessa falta de coerência, fui coagido a assinar a ata em que me comprometo a me emendar. Mas tudo bem, pelo menos não tive que ajoelhar no milho.
Essa história ainda tem uma moral. Esse ano foi aprovada a Lei 52.719, cujo texto poderia começar assim: “institui a Aprovação Automática no Ensino Médio e dá outras providências”. Afinal, ela estabelece que o governo possui recursos para conceder aumento salarial à categoria, mas que prefere distribuir o montante privilegiando as escolas que aprovarem mais alunos, passando por cima do princípio da isonomia. Como essa lei, muito inteligentemente, estabelece um critério coletivo de avaliação, podemos seguramente esperar sofrer cada vez mais pressão para elevar artificialmente o percentual de aprovações, sob pena de sofrermos cortes em nossas bonificações de final de ano. Vai ser um professor vigiando o outro, e o governo punindo a todos. Valhei-nos, São Foucault!
28 de julho de 2008
24 de julho de 2008
Apoio aos Professores
No jornal Folha de São Paulo do dia 20 de julho de 2008, p. A2 (Opinião), Antônio Ermírio de Morais escreveu um ótimo artigo manifestando e fundamentando seu apoio aos professores. Fez referência a sua juventude onde “a professora e o gerente do Banco do Brasil gozavam do mais alto prestígio” e relatou algumas análises feitas por ele.
Antônio Ermírio pesquisou algumas medidas tomadas por países desenvolvidos que resultaram em melhora na educação. Obteve surpresas e obviedades. No campo das surpresas constatou que nas nações desenvolvidas “os adicionais de investimento em educação não produzem necessariamente bons resultados na aprendizagem.” Ainda no campo das surpresas notou que “a redução no tamanho das classes tem um efeito desprezível sobre a melhoria do desempenho dos alunos.” Quanto às obviedades, cita a seguinte frase tirada de estudos da McKinsey, apresentado pela Fundação Lemann: “A qualidade da educação não pode ser melhor do que a qualidade dos professores”. Fala, também, de países na condição de emergentes, semelhantes ao Brasil, como Cingapura e Coréia do Sul, que apresentam bons resultados na educação e o professor vem no topo da pirâmide. Como conclusão, nos alerta de que não adiantará apenas aumentar recursos e diminuir o tamanho das classes se o professor não for bem preparado. De nossa parte e em linhas gerais não dá para discordar do que foi escrito. O que podemos fazer, dentro dos nossos limites, é alguma complementação.
Interessante é que, para boa parte daqueles professores que fazem maiores análises e não costumam se submeter às políticas prontas e milagrosas, as análises de Antônio Ermírio de Morais não apresentaram grandes surpresas. O que devemos lembrar é que os citados “adicionais de investimentos” não vem acontecendo no Brasil. Além disso, podemos questionar uma possível diferença entre uma classe numerosa em um país desenvolvido e uma classe numerosa em um país como o Brasil. Normalmente, num país desenvolvido, juntamente com uma infra-estrutura diferenciada há uma condição social e cultural diferente daquelas constatadas no Brasil. Assim, uma classe numerosa lá, composta por alunos de provém de uma estrutura social diferente daquela do Brasil, não é igual a uma classe numerosa no nosso país. Em termos culturais, por exemplo, o Brasil ainda é um país de poucos leitores, há poucas bibliotecas e livrarias e, no geral, a população está mais preocupada com os campeonatos de futebol e os programas televisivos do que com uma boa leitura. E existe uma comprovada desestrutura social em muitas partes do Brasil, pais separados, famílias vivendo de subempregos, má alimentação etc. Daí supormos que uma classe pequena no Brasil, com essas características que expomos, ser mais complicada que uma classe numerosa em outros países.
A escola no Brasil é plural e inclusiva. Todos a freqüentam, os que querem estudar e os que não querem, os que prestam atenção e os que não prestam, os que vão para se socializar e os que vão para subir um degrau na escala social. Essa característica, paradoxalmente, é boa e ruim. Boa porque realmente todos têm que ir a escola e, querendo ou não, vão aprender alguma coisa, mesmo que não for da matéria em si. Ruim porque complica o desempenho geral da classe. Para entender melhor isso só mesmo quem está na sala de aula e pode constatar as grandes diferenças entre as muitas escolas de periferia e as poucas centrais. Nota-se, no geral, que quando um grupo de alunos não está interessado o desempenho da classe fica comprometido.
Quanto à qualidade do professor é outro assunto que demanda muita análise. O que podemos entender por qualidade? Quando falamos em qualidade de um produto espera-se que ele atenda os objetivos para o qual foi feito. Mas, quando falamos em pessoas complica um pouco. Um bom médico, um bom engenheiro é mais fácil entender. O engenheiro calcula bem, sua obra atende normas técnicas, o médico tem grande habilidade em cirurgias e é atencioso, mas, e o professor? Lida com uma classe heterogênea, o que ensina, às vezes, não diz respeito àquilo que o aluno quer entender, o resultado nunca é imediato etc.
No entanto, acreditamos que deve haver sim uma qualidade. Suponhamos que ela possa ser obtida na formação específica, pedagógica e até psicológica do professor, coisas que dá para se aprender em boas faculdades. Para isso acontecer não adianta melhorar a qualidade dos cursos, o mais racional é melhorar o salário dos professores. Eis a questão, que não precisa de muitos rodeios para ser entendida! Com bons salários, bons profissionais vão para a educação, para se formar bons profissionais surgem bons cursos e a disputa por uma vaga no magistério fará com que haja cada vez mais aperfeiçoamento.
Alguns professores são mal qualificados porque quem é bem qualificado não está interessado em ganhar um salário de professor para sobreviver. Analisem alguns concursos de nível superior, de qualquer área, com salários acima de R$5.000,00. Os profissionais que ingressam ali são qualificados. Sem bons salários não existe profissionais qualificados.
Apesar dos baixos salários, e da má condição estrutural das escolas brasileiras, cobram-nos muito. E damos um retorno até satisfatório. Uma coisa que nós, professores, e até a sociedade, não devemos aceitar é esse discurso de que o professor é o único responsável pela aprendizagem dos alunos. Aquele velho discurso que escutamos (“o que você fez para que teu aluno aprendesse?”) não tem correspondência com a realidade. Nossa razão deve repudiar tal indagação. Nosso raciocínio deve repelir com outras indagações: o que o estado fez, o que a sociedade fez, o que a história econômica do Brasil fez, o que os pais de nossos alunos estão fazendo e o que o próprio aluno está fazendo? Depois que eles responderem essas questões nós responderemos a nossa.
Alexandre de Freitas é professor de Geografia na rede estadual de ensino e membro da equipe do blog Sala dos Professores.
Antônio Ermírio pesquisou algumas medidas tomadas por países desenvolvidos que resultaram em melhora na educação. Obteve surpresas e obviedades. No campo das surpresas constatou que nas nações desenvolvidas “os adicionais de investimento em educação não produzem necessariamente bons resultados na aprendizagem.” Ainda no campo das surpresas notou que “a redução no tamanho das classes tem um efeito desprezível sobre a melhoria do desempenho dos alunos.” Quanto às obviedades, cita a seguinte frase tirada de estudos da McKinsey, apresentado pela Fundação Lemann: “A qualidade da educação não pode ser melhor do que a qualidade dos professores”. Fala, também, de países na condição de emergentes, semelhantes ao Brasil, como Cingapura e Coréia do Sul, que apresentam bons resultados na educação e o professor vem no topo da pirâmide. Como conclusão, nos alerta de que não adiantará apenas aumentar recursos e diminuir o tamanho das classes se o professor não for bem preparado. De nossa parte e em linhas gerais não dá para discordar do que foi escrito. O que podemos fazer, dentro dos nossos limites, é alguma complementação.
Interessante é que, para boa parte daqueles professores que fazem maiores análises e não costumam se submeter às políticas prontas e milagrosas, as análises de Antônio Ermírio de Morais não apresentaram grandes surpresas. O que devemos lembrar é que os citados “adicionais de investimentos” não vem acontecendo no Brasil. Além disso, podemos questionar uma possível diferença entre uma classe numerosa em um país desenvolvido e uma classe numerosa em um país como o Brasil. Normalmente, num país desenvolvido, juntamente com uma infra-estrutura diferenciada há uma condição social e cultural diferente daquelas constatadas no Brasil. Assim, uma classe numerosa lá, composta por alunos de provém de uma estrutura social diferente daquela do Brasil, não é igual a uma classe numerosa no nosso país. Em termos culturais, por exemplo, o Brasil ainda é um país de poucos leitores, há poucas bibliotecas e livrarias e, no geral, a população está mais preocupada com os campeonatos de futebol e os programas televisivos do que com uma boa leitura. E existe uma comprovada desestrutura social em muitas partes do Brasil, pais separados, famílias vivendo de subempregos, má alimentação etc. Daí supormos que uma classe pequena no Brasil, com essas características que expomos, ser mais complicada que uma classe numerosa em outros países.
A escola no Brasil é plural e inclusiva. Todos a freqüentam, os que querem estudar e os que não querem, os que prestam atenção e os que não prestam, os que vão para se socializar e os que vão para subir um degrau na escala social. Essa característica, paradoxalmente, é boa e ruim. Boa porque realmente todos têm que ir a escola e, querendo ou não, vão aprender alguma coisa, mesmo que não for da matéria em si. Ruim porque complica o desempenho geral da classe. Para entender melhor isso só mesmo quem está na sala de aula e pode constatar as grandes diferenças entre as muitas escolas de periferia e as poucas centrais. Nota-se, no geral, que quando um grupo de alunos não está interessado o desempenho da classe fica comprometido.
Quanto à qualidade do professor é outro assunto que demanda muita análise. O que podemos entender por qualidade? Quando falamos em qualidade de um produto espera-se que ele atenda os objetivos para o qual foi feito. Mas, quando falamos em pessoas complica um pouco. Um bom médico, um bom engenheiro é mais fácil entender. O engenheiro calcula bem, sua obra atende normas técnicas, o médico tem grande habilidade em cirurgias e é atencioso, mas, e o professor? Lida com uma classe heterogênea, o que ensina, às vezes, não diz respeito àquilo que o aluno quer entender, o resultado nunca é imediato etc.
No entanto, acreditamos que deve haver sim uma qualidade. Suponhamos que ela possa ser obtida na formação específica, pedagógica e até psicológica do professor, coisas que dá para se aprender em boas faculdades. Para isso acontecer não adianta melhorar a qualidade dos cursos, o mais racional é melhorar o salário dos professores. Eis a questão, que não precisa de muitos rodeios para ser entendida! Com bons salários, bons profissionais vão para a educação, para se formar bons profissionais surgem bons cursos e a disputa por uma vaga no magistério fará com que haja cada vez mais aperfeiçoamento.
Alguns professores são mal qualificados porque quem é bem qualificado não está interessado em ganhar um salário de professor para sobreviver. Analisem alguns concursos de nível superior, de qualquer área, com salários acima de R$5.000,00. Os profissionais que ingressam ali são qualificados. Sem bons salários não existe profissionais qualificados.
Apesar dos baixos salários, e da má condição estrutural das escolas brasileiras, cobram-nos muito. E damos um retorno até satisfatório. Uma coisa que nós, professores, e até a sociedade, não devemos aceitar é esse discurso de que o professor é o único responsável pela aprendizagem dos alunos. Aquele velho discurso que escutamos (“o que você fez para que teu aluno aprendesse?”) não tem correspondência com a realidade. Nossa razão deve repudiar tal indagação. Nosso raciocínio deve repelir com outras indagações: o que o estado fez, o que a sociedade fez, o que a história econômica do Brasil fez, o que os pais de nossos alunos estão fazendo e o que o próprio aluno está fazendo? Depois que eles responderem essas questões nós responderemos a nossa.
Alexandre de Freitas é professor de Geografia na rede estadual de ensino e membro da equipe do blog Sala dos Professores.
12 de julho de 2008
Aos mestres, sem carinho

Houve época em que a educação era um tema prioritário para o jornal – agora, não é mais; a greve lhe dá uma chance para que seja de novo.
A FOLHA tem tratado os professores do ensino público que ficaram em greve em São Paulo por três semanas sem nenhuma boa vontade. Posicionou-se em editorial contra a paralisação, publicou colunas agressivas contra eles e, no noticiário, tratou do assunto mais como empecilho adicional e desnecessário ao caótico trânsito da cidade do que como problema sério de políticas públicas.
Até aí, tudo relativamente bem. O jornal e seus colunistas têm pleno direito de manifestar as opiniões que julgam as mais acertadas. As páginas informativas, que nunca podem ser contaminadas pelas de opinião, não chegaram a se engajar em campanha contra os grevistas. De resto, a categoria dos professores do ensino público e seus representantes sindicais estão longe de não merecerem críticas.
A questão importante é outra. A greve é excelente oportunidade para a imprensa fazer levantamento detalhado das condições da educação, que a Folha desperdiça.
Dezenas de leitores se dirigiram ao ombudsman para reclamar da cobertura da greve. Nenhum a elogiou. Nas queixas, não identifiquei ranço ideológico ou partidário.
Há consenso nacional sobre a importância da educação para melhorar o futuro do país. Mas quando é necessário demonstrar concretamente esse compromisso, poucos dizem presente.
Para um jornal ir além da retórica precisa investir em reportagens minuciosas sobre os problemas que travam a melhora da educação.
Pelo que a Folha publicou desde o início da greve, não é possível concluir se ela foi justificável ou não.
Nem questões básicas, como o número de faltas permitido foram resolvidas (um leitor explica que são 32 faltas/ aula, cinco ou seis dias por ano, não 32 dias, como deu a entender o noticiário).
Não foi feita discussão profunda sobre o decreto que detonou a greve. Não se chegou nem perto de uma radiografia de dificuldades como: violência de alunos contra professores, existência de equipamento didático necessário nas escolas, incentivo para aperfeiçoamento profissional, tamanho de turmas em salas de aula, adequação de carga horária e currículo, acesso a internet, realização de excursões, qualidade de bibliotecas, laboratórios e salas de arte.
Não houve diagnóstico das condições salariais médias do professor: qual porcentagem de sua remuneração é salário e qual são bônus e gratificações, como se compara o pagamento do professor paulista com os de outros Estados e países, quantas horas semanais precisa trabalhar (em sala de aula e fora dela) para ganhar uma remuneração minimamente compatível com sua formação e a importância estratégica de sua profissão.
Pedi à Secretaria de Redação uma auto-avaliação da cobertura. Ela respondeu considerá-la "correta, mas é claro que sempre é possível melhorar". Disse ter sido este jornal que primeiro questionou o valor do reajuste anunciado pelo governo (foi de apenas 5,41%, não de 12% como apregoado). Sua resposta não me convenceu de que a Folha tenha ido bem.
Ou a educação é um tema prioritário para o jornal ou não é. Houve época, meados da década de 70, em que sem dúvida foi, apesar de muitos erros. Agora, não é mais. Deveria ser. A greve lhe dá uma chance para que seja de novo.
Folha de São Paulo, 06 de julho - Coluna do Ombudsman
Carlos Eduardo Lins da Silva é o ombudsman da Folha desde 24 de abril de 2008. O ombudsman tem mandato de um ano, renovável por mais dois. Não pode ser demitido durante o exercício da função e tem estabilidade por seis meses após deixá-la. Suas atribuições são criticar o jornal sob a perspectiva dos leitores, recebendo e verificando suas reclamações, e comentar, aos domingos, o noticiário dos meios de comunicação.
Fonte: http://www.apeoesp.org.br/especiais/mestre_sem_carinho.html
1 de julho de 2008
Os Senhores Feudais da Idade Mídia
Sei que em toda guerra as informações são manipuladas por ambos os lados, mas nunca vi uma discrepância tão gritante entre os números divulgados pelo sindicato dos professores e pelo governo estadual. Enquanto o presidente do sindicato dos professores afirma que 75% dos professores da rede estadual estão em greve, o governo continua irredutível em seus ínfimos 2%.
Bem, já vimos como os matemágicos do governo conseguem transformar 5 pontos percentuais em 12. Mas, apenas como exercício de raciocínio, arrisquemos aceitar uma cifra próxima à do governo para a totalidade do estado, e numa mais próxima à do sindicato apenas para a capital. Minha tese é de que mesmo esses números já são significativos, se estão concentrados na Grande São Paulo. Basta pensar que o estopim da greve foi a recente aprovação da lei que altera as regras da remoção, que sem dúvida atinge principalmente os maiores centros urbanos, especialmente da região metropolitana, que absorvem o maior número de ingressantes interessados na remoção tão brevemente quanto possível.
É preciso esclarecer a todos que a remoção ocorre apenas no final dos períodos letivos, em nada prejudicando o andamento das aulas. E ainda que esse não fosse o caso, tratar-se-ia de um erro administrativo por parte da própria Secretaria, e não do professor. O argumento do governo, portanto, não procede. Mesmo a substituição, que pode ocorrer em caráter temporário a qualquer momento, pressupõe a falta de docente em outro lugar, de maneira que qualquer possível prejuízo a uma turma é compensado pelo benefício a outra. Isso, é claro, sem falar na motivação do professor, que obviamente tende a aumentar na medida em que se sente melhor localizado. Qualquer transferência só ocorre porque existem vagas disponíveis em regiões pelas quais o servidor tem predileção, de maneira que o estado não está perdendo membros do seu quadro de servidores, mas apenas deslocando-os para locais onde são igualmente necessários. Quanto à continuidade do trabalho docente, não é em nome dela que vem se elaborando os famigerados “Cadernos do Professor”? Admite-se, então, que a (imposta) “Proposta Curricular” não está surtindo o efeito esperado?
Está difícil entender a lógica do governo, se é que ele possui alguma. Não lhe seria politicamente mais inteligente melhorar as condições do seu sistema de ensino? Se o problema são os grandes centros urbanos, que absorvem o maior número de servidores pouco interessados em lá permanecer, o papel do estado deveria ser se perguntar pelos motivos do alto índice de rejeição por esses locais, e tentar melhorar suas condições de trabalho. Isso sim, e nada mais, poderia desestimular os profissionais de tentar ir embora a todo custo.
O mesmo pode-se dizer a respeito do excesso de faltas de alguns professores. O governo vem tomando uma série de medidas coercitivas para coibir os docentes de faltar, ameaçando puni-los com diminuição do bônus, descontos na folha de pagamento e suspensão de direitos adquiridos, quando seria mais inteligente investir de verdade nas escolas, a fim de torná-las um ambiente mais agradável, onde o professor tenha algum prazer em comparecer assiduamente, sem sofrer estresse ou se desgastar tanto por tão pouco. Em poucas palavras, um lugar de convivência saudável e de efetiva troca de saberes. Infelizmente, estamos muito longe disso.
As propagandas do governo deveriam vir seguidas de advertências similares às das propagandas de cigarro: ACREDITAR NESSAS AFIRMAÇÕES É PREJUDICIAL À SUA INTELIGÊNCIA.
Bem, já vimos como os matemágicos do governo conseguem transformar 5 pontos percentuais em 12. Mas, apenas como exercício de raciocínio, arrisquemos aceitar uma cifra próxima à do governo para a totalidade do estado, e numa mais próxima à do sindicato apenas para a capital. Minha tese é de que mesmo esses números já são significativos, se estão concentrados na Grande São Paulo. Basta pensar que o estopim da greve foi a recente aprovação da lei que altera as regras da remoção, que sem dúvida atinge principalmente os maiores centros urbanos, especialmente da região metropolitana, que absorvem o maior número de ingressantes interessados na remoção tão brevemente quanto possível.
É preciso esclarecer a todos que a remoção ocorre apenas no final dos períodos letivos, em nada prejudicando o andamento das aulas. E ainda que esse não fosse o caso, tratar-se-ia de um erro administrativo por parte da própria Secretaria, e não do professor. O argumento do governo, portanto, não procede. Mesmo a substituição, que pode ocorrer em caráter temporário a qualquer momento, pressupõe a falta de docente em outro lugar, de maneira que qualquer possível prejuízo a uma turma é compensado pelo benefício a outra. Isso, é claro, sem falar na motivação do professor, que obviamente tende a aumentar na medida em que se sente melhor localizado. Qualquer transferência só ocorre porque existem vagas disponíveis em regiões pelas quais o servidor tem predileção, de maneira que o estado não está perdendo membros do seu quadro de servidores, mas apenas deslocando-os para locais onde são igualmente necessários. Quanto à continuidade do trabalho docente, não é em nome dela que vem se elaborando os famigerados “Cadernos do Professor”? Admite-se, então, que a (imposta) “Proposta Curricular” não está surtindo o efeito esperado?
Está difícil entender a lógica do governo, se é que ele possui alguma. Não lhe seria politicamente mais inteligente melhorar as condições do seu sistema de ensino? Se o problema são os grandes centros urbanos, que absorvem o maior número de servidores pouco interessados em lá permanecer, o papel do estado deveria ser se perguntar pelos motivos do alto índice de rejeição por esses locais, e tentar melhorar suas condições de trabalho. Isso sim, e nada mais, poderia desestimular os profissionais de tentar ir embora a todo custo.
O mesmo pode-se dizer a respeito do excesso de faltas de alguns professores. O governo vem tomando uma série de medidas coercitivas para coibir os docentes de faltar, ameaçando puni-los com diminuição do bônus, descontos na folha de pagamento e suspensão de direitos adquiridos, quando seria mais inteligente investir de verdade nas escolas, a fim de torná-las um ambiente mais agradável, onde o professor tenha algum prazer em comparecer assiduamente, sem sofrer estresse ou se desgastar tanto por tão pouco. Em poucas palavras, um lugar de convivência saudável e de efetiva troca de saberes. Infelizmente, estamos muito longe disso.
As propagandas do governo deveriam vir seguidas de advertências similares às das propagandas de cigarro: ACREDITAR NESSAS AFIRMAÇÕES É PREJUDICIAL À SUA INTELIGÊNCIA.
28 de junho de 2008
Carta Aberta sobre a greve dos professores estaduais
Reproduzo abaixo um texto recebido por e-mail e que merece divulgação.
Aos alunos, aos seus responsáveis e à comunidade.
As atuais circunstâncias do ensino público levam uma parcela significativa dos professores a mais uma greve. Por meio desta carta aberta, venho esclarecer algumas questões, tomar posição como professor e assumir publicamente responsabilidades que me cabem como membro do setor público.
Antes de tudo, cabe tornar claro que, como funcionário público, minhas obrigações e responsabilidades são com a comunidade na qual vivo e pela qual trabalho, sempre tendo como horizonte a realização de suas necessidades e desejos, em uma relação de construção democrática que sempre deve levar em consideração aquilo o que pensam pais, alunos e demais professores. No momento em que um governo ou qualquer dirigente coloca projetos
pessoais ou de seu grupo à frente do interesse público, agindo de forma autoritária e anti-democrática, violentando os preceitos mais básicos da vida democrática em sociedade e do respeito à diversidade de opiniões, idéias e culturas, então os vínculos de obrigação do funcionário público com a estrutura de poder perdem sua legitimidade, devendo este voltar-se em direção às raízes sociais da instituição. Nesse caso, voltar-se ao próprio conjunto dos professores, de seus alunos, das famílias e da comunidade, que partilham direta ou indiretamente o futuro da escola. E este é o espírito que permeia esta carta.
A decisão de entrar em greve nunca é fácil. Aqueles que escolhem esse caminho o fazem por julgarem que outras tentativas de solução não são possíveis, e que a gravidade é tamanha que o custo da greve é menor do que o de manter as coisas no rumo em que estão, sem tomar qualquer atitude. Com esta greve não é diferente. Para entender porque chegamos a esse ponto é preciso olhar o que aconteceu com o ensino público nos últimos tempos.
Devemos considerar a existência de um já antigo processo de degradação da qualidade do ensino. Embora as razões dessa degradação sejam várias, devemos chamar a atenção para dois processos principais, ambos frutos de decisões tomadas ao longo dos últimos 14 anos de governo de um mesmo grupo político, e que, completamente equivocadas, contribuíram de forma decisiva para o atual estado de calamidade.
A redução dos investimentos em educação é seguramente o ponto de partida da grave crise que hoje atinge as escolas públicas. Com a lógica de limitar os gastos, evitou-se o que era necessário, a contratação de professores e funcionários, assim como o reajuste salarial. Duas consequências surgiram dessa política de contenção de gastos: primeiro, a falta de professores aumentou o número de alunos por turma, e hoje é muito raro encontrar uma turma com menos de 40 alunos; em segundo, os professores foram obrigados a aumentar o número de aulas por semana, trabalhando em várias escolas, públicas e privadas, para compensar o salário baixo e manter o padrão de vida. Mais aulas com mais alunos. Essa sobrecarga de trabalho teve consequências profundas na qualidade do ensino e na vida do professor e de seus alunos. A atenção ao desenvolvimento e ao aprendizado deixou de existir como deveria, pois como é possível ao professor conhecer e acompanhar algo entre 400 e 640 alunos? Como esse professor irá corrigir as provas? Como comentar todas as redações e dar a atenção necessária para que cada aluno supere suas dificuldades individuais? Não é possível, como todos sabem, menos a Secretaria da Educação! O professor sobrecarregado não consegue atingir seus objetivos e afunda em frustração, seu ritmo de trabalho o consome, e o preço pago é sua saúde: perda de voz, crises nervosas, depressão, pressão alta, úlcera, gastrite... o repertório de doenças é extenso, e nem todas perceptíveis à primeira vista. O remédio que boa parte encontra é “reduzir a dedicação”. As aulas são dadas com menos energia, os alunos já não recebem tanta atenção, as atividades são corrigidas de forma muito rápida, fala-se somente o necessário, pede-se muita cópia, seja do livro, seja da lousa... As aulas perdem qualidade, a vida do professor também.
O segundo processo decisivo para a destruição da escola pública foi a implantação do regime de progressão continuada, transformada em “aprovação automática” pela política dos governos do Estado. Em seus princípios é absolutamente correta a idéia de que o aluno não deve ser reprovado por problemas de desempenho, afinal a escola serve para ensinar e desenvolver, nada mais justo que cada dificuldade seja corrigida imediatamente, sem a necessidade de perder um ano inteiro, sem repetir inutilmente o estudo de conteúdos já vistos e sem marcar o aluno com a reprovação. Porém isso exigiria a possibilidade de maior acompanhamento do aluno, com a criação de aulas de apoio e a contratação de professores auxiliares para dar esse suporte a mais. Como vimos, foi justamente o contrário. O número de professores é mínimo e as condições de acompanhamento do aluno inexistentes. A progressão continuada transformou-se em uma grande mentira, os alunos passaram a ser aprovados de um ano para o outro sem aprender o que deveriam. E esse é um crime (!) que atinge grande parte dos alunos: o seu direito à educação foi roubado, transformado em uma mentira. O aluno não apenas deixa de aprender como é cruelmente lançado em um vazio, pois é incapaz de acompanhar as aulas de um estágio mais avançado. Como compreender a matéria da 8a série se ele não aprendeu o que deveria ter aprendido na 7a e na 6a séries? Como aprender uma aula de física sem dominar o básico da matemática? O aluno fica a cada ano mais para trás e abandonado, não conseguindo acompanhar as aulas.
Dois resultados são imediatamente percebidos no comportamento dos alunos. De um lado, a irresponsabilidade, pois não importa o que o aluno faça ou não, ele sabe que não precisa estudar para completar os ciclos de estudo; de outro, a humilhação, a raiva e a descrença na escola; jogado em um vazio, incapaz de entender as aulas, é natural que passe a conversar e a ignorá-las, como alguém cansado de ouvir uma conversa em um língua que desconhece. Como uma “bola de neve”, tudo isso se acumula de um ano para o outro, com os alunos compreendendo cada vez menos e desinteressando-se cada vez mais. Hoje a imensa maioria dos alunos das turmas de ensino médio são incapazes de acompanhar as aulas de matemática, geografia, filosofia, etc.
A conclusão disso tudo é um completo caos em sala de aula. Os professores já não conseguem ensinar, os alunos não conseguem aprender. Todas as dificuldades se somam e a escola encontra-se praticamente falida, incapaz de cumprir sua função social.
O desastre levou o governo do Estado a tomar medidas. Entretanto, no lugar de admitir a responsabilidade das administrações anteriores – de seu próprio partido – e atacar os problemas principais citados, a falta de investimentos e a “aprovação automática”, preferiu arrumar outros culpados, os professores! E desprezando a experiência de quem vive diariamente a escola pública, no contato direto com a comunidade, nas atividades de sala de aula, assim como desprezando também a opinião dos pais e alunos, assumiu por si mesmo a tarefa de “melhorar” o ensino, de forma unilateral, particular e anti-democrática, ignorando os problemas reais, culpando os profissionais e ignorando sua própria responsabilidade como origem da maior parte dos problemas que enfrentamos.
Como primeira medida, centralizou-se todo o poder e as decisões na Secretaria da Educação, elevando a secretária ao status de “portadora da verdade” sobre a escola e sobre suas soluções, e onde técnicos, burocratas e acadêmicos, muitos dos quais jamais pisaram em uma sala de aula de uma escola de periferia, simplesmente desprezam e ignoram os profissionais da educação que efetivamente conhecem os problemas e possíveis soluções a serem tentadas. A partir de números e estatísticas, que o tecnocrata ignorante da realidade precisa produzir a partir de incontáveis provas e avaliações, mas cujos resultados são amplamente conhecidos e óbvios a qualquer professor com o mínimo de experiência na educação pública, são tomadas medidas sem qualquer discussão com os professores, pais, alunos e comunidade. Ao modo dos piores regimes autoritários, em nome da eficiência se ignora e se contraria todos os princípios básicos da educação e da democracia, jogando no lixo a própria lei que versa sobre a construção participativa da escola.
Mas que idéias são essas que o governo aplica sem consultar ninguém e sem legitimidade? As de que a escola se assemelha à uma fábrica, de que os alunos são produtos para atender ao mercado de trabalho que pede mão-de-obra barata e genérica – nada de médicos ou engenheiros -, de que o professor deve ser um operário barato e de fácil reposição, que cumpra ordens sem questionar e que ensine seus alunos a se comportarem aceitando passivamente tudo o que é imposto. Em resumo, o lugar da escola pública não é o de formar pessoas conscientes ou um trabalhador qualificado que possa trabalhar em hospitais, indústrias ou como pesquisador de alta tecnologia, para isso existem as escolas privadas onde estuda a classe média e alta. Na escola pública, para as pessoas de baixa renda, oferece-se um ensino de baixa qualidade, barato e precário. Com apostilas de péssima qualidade e conteúdo questionável, que infantilizam os alunos, onde não existe o desenvolvimento do senso crítico, apenas aprende-se uma doutrina elaborada por quem ocupa a Secretaria da Educação e representa esse governo. Um ensino único e uniforme, que destrói a diversidade de pensamentos e de culturas, que joga a formação e a liberdade dos professores no lixo. O ideal imposto é o do adestramento de um trabalhador genérico para o setor de serviços. O aluno deve aprender a ler tabelas, interpretar gráficos, lidar com informações, usar o básico de um computador, porque é esse tipo de habilidade que “o mercado exige” da população mais pobre, que terá seus lugares reservados como serventes, auxiliares, vendedores, repositores de mercadorias e por aí afora. É impensável uma formação básica que permita a esse aluno cursar uma faculdade mais especializada. Esses empregos são poucos, e já estão reservados para a classe média-alta, que pode pagar o custo maior dessa educação. Quando um ou outro “talento” se sobressair em meio ao cenário de extermínio do ensino público, esse será “pescado” por programas especiais ou cursos técnicos, que concederão um certificado que o identificará, que, como quem separa o joio do trigo, o diferenciará dos outros alunos, que serão jogados na vala comum do ensino de baixa qualidade. E, assim, a desigualdade social se reproduz e perpetua.
Quanto ao professor, esse é transformado em bode expiatório de todas as mazelas, é amarrado e amordaçado. No lugar do investimento em condições de trabalho, sobrecarrega-se ainda mais suas atividades, já impossíveis. Decretos governamentais não perguntam o motivo dos professores faltarem e quantos o fazem. Limitam as faltas sem qualquer critério, prejudicando aqueles que realmente têm problemas sérios. No lugar de prover melhores condições e regras para que cada professor se dedique a uma única escola e adapte-se, proíbem-se as transferências, mesmo que seja impossível ao professor continuar fazendo seu trabalho na unidade em que se encontra. No lugar de reduzir o trabalho e aumentar a qualidade e a dedicação, impõe-se uma sobrecarga e um ritmo de trabalho cada vez mais irreal e insano, deteriorando ainda mais as condições de trabalho e jogando para fora da instituição os melhores e mais jovens professores, entre os quais aqueles recentemente concursados e completamente desiludidos. Hoje, pela falta de condições de trabalho, a imensa maioria dos professores pensa em abandonar as escolas, entre os quais me incluo, apesar de saber que aqui seria o meu lugar.
E aqui chegamos à conclusão. Talvez essa greve seja o último suspiro de uma instituição falida e destruída. Uma resposta tímida a um processo de segregação das populações mais pobres, que antes confiavam na escola como forma de transformação de suas vidas, mas que transformou-se apenas numa forma de determinar uma posição subordinada dentro de uma sociedade historicamente desigual e injusta. Não, o aluno pobre jamais disputará as vagas em publicidade ou engenharia em pé de igualdade, não no que depender da escola pública. E as classes média e alta, com seus filhos estudando em escolas particulares, pouco se importam e se fazem de desentendidas. Afinal, neste país, por mais que reclamem, paga-se barato pelos privilégios que a desigualdade proporciona em uma sociedade economicamente selvagem. Frente a isso, acredito que nesse momento o mais importante ensinamento que um professor possa dar ao seu aluno, e que recupera um mínimo de dignidade para ambos, seja o de descruzar os braços e enfrentar a correnteza, de encarar o futuro com olhos abertos e atentos, e de, se for derrubado, que o seja com a cabeça erguida.
São Paulo, 25 de Junho de 2008
Luciano Nunes Malheiro
Escola Estadual Tarcísio Álvares Lobo
Professor Efetivo da Rede Pública do Estado de São Paulo
Disciplinas de Filosofia e História
Aos alunos, aos seus responsáveis e à comunidade.
As atuais circunstâncias do ensino público levam uma parcela significativa dos professores a mais uma greve. Por meio desta carta aberta, venho esclarecer algumas questões, tomar posição como professor e assumir publicamente responsabilidades que me cabem como membro do setor público.
Antes de tudo, cabe tornar claro que, como funcionário público, minhas obrigações e responsabilidades são com a comunidade na qual vivo e pela qual trabalho, sempre tendo como horizonte a realização de suas necessidades e desejos, em uma relação de construção democrática que sempre deve levar em consideração aquilo o que pensam pais, alunos e demais professores. No momento em que um governo ou qualquer dirigente coloca projetos
pessoais ou de seu grupo à frente do interesse público, agindo de forma autoritária e anti-democrática, violentando os preceitos mais básicos da vida democrática em sociedade e do respeito à diversidade de opiniões, idéias e culturas, então os vínculos de obrigação do funcionário público com a estrutura de poder perdem sua legitimidade, devendo este voltar-se em direção às raízes sociais da instituição. Nesse caso, voltar-se ao próprio conjunto dos professores, de seus alunos, das famílias e da comunidade, que partilham direta ou indiretamente o futuro da escola. E este é o espírito que permeia esta carta.
A decisão de entrar em greve nunca é fácil. Aqueles que escolhem esse caminho o fazem por julgarem que outras tentativas de solução não são possíveis, e que a gravidade é tamanha que o custo da greve é menor do que o de manter as coisas no rumo em que estão, sem tomar qualquer atitude. Com esta greve não é diferente. Para entender porque chegamos a esse ponto é preciso olhar o que aconteceu com o ensino público nos últimos tempos.
Devemos considerar a existência de um já antigo processo de degradação da qualidade do ensino. Embora as razões dessa degradação sejam várias, devemos chamar a atenção para dois processos principais, ambos frutos de decisões tomadas ao longo dos últimos 14 anos de governo de um mesmo grupo político, e que, completamente equivocadas, contribuíram de forma decisiva para o atual estado de calamidade.
A redução dos investimentos em educação é seguramente o ponto de partida da grave crise que hoje atinge as escolas públicas. Com a lógica de limitar os gastos, evitou-se o que era necessário, a contratação de professores e funcionários, assim como o reajuste salarial. Duas consequências surgiram dessa política de contenção de gastos: primeiro, a falta de professores aumentou o número de alunos por turma, e hoje é muito raro encontrar uma turma com menos de 40 alunos; em segundo, os professores foram obrigados a aumentar o número de aulas por semana, trabalhando em várias escolas, públicas e privadas, para compensar o salário baixo e manter o padrão de vida. Mais aulas com mais alunos. Essa sobrecarga de trabalho teve consequências profundas na qualidade do ensino e na vida do professor e de seus alunos. A atenção ao desenvolvimento e ao aprendizado deixou de existir como deveria, pois como é possível ao professor conhecer e acompanhar algo entre 400 e 640 alunos? Como esse professor irá corrigir as provas? Como comentar todas as redações e dar a atenção necessária para que cada aluno supere suas dificuldades individuais? Não é possível, como todos sabem, menos a Secretaria da Educação! O professor sobrecarregado não consegue atingir seus objetivos e afunda em frustração, seu ritmo de trabalho o consome, e o preço pago é sua saúde: perda de voz, crises nervosas, depressão, pressão alta, úlcera, gastrite... o repertório de doenças é extenso, e nem todas perceptíveis à primeira vista. O remédio que boa parte encontra é “reduzir a dedicação”. As aulas são dadas com menos energia, os alunos já não recebem tanta atenção, as atividades são corrigidas de forma muito rápida, fala-se somente o necessário, pede-se muita cópia, seja do livro, seja da lousa... As aulas perdem qualidade, a vida do professor também.
O segundo processo decisivo para a destruição da escola pública foi a implantação do regime de progressão continuada, transformada em “aprovação automática” pela política dos governos do Estado. Em seus princípios é absolutamente correta a idéia de que o aluno não deve ser reprovado por problemas de desempenho, afinal a escola serve para ensinar e desenvolver, nada mais justo que cada dificuldade seja corrigida imediatamente, sem a necessidade de perder um ano inteiro, sem repetir inutilmente o estudo de conteúdos já vistos e sem marcar o aluno com a reprovação. Porém isso exigiria a possibilidade de maior acompanhamento do aluno, com a criação de aulas de apoio e a contratação de professores auxiliares para dar esse suporte a mais. Como vimos, foi justamente o contrário. O número de professores é mínimo e as condições de acompanhamento do aluno inexistentes. A progressão continuada transformou-se em uma grande mentira, os alunos passaram a ser aprovados de um ano para o outro sem aprender o que deveriam. E esse é um crime (!) que atinge grande parte dos alunos: o seu direito à educação foi roubado, transformado em uma mentira. O aluno não apenas deixa de aprender como é cruelmente lançado em um vazio, pois é incapaz de acompanhar as aulas de um estágio mais avançado. Como compreender a matéria da 8a série se ele não aprendeu o que deveria ter aprendido na 7a e na 6a séries? Como aprender uma aula de física sem dominar o básico da matemática? O aluno fica a cada ano mais para trás e abandonado, não conseguindo acompanhar as aulas.
Dois resultados são imediatamente percebidos no comportamento dos alunos. De um lado, a irresponsabilidade, pois não importa o que o aluno faça ou não, ele sabe que não precisa estudar para completar os ciclos de estudo; de outro, a humilhação, a raiva e a descrença na escola; jogado em um vazio, incapaz de entender as aulas, é natural que passe a conversar e a ignorá-las, como alguém cansado de ouvir uma conversa em um língua que desconhece. Como uma “bola de neve”, tudo isso se acumula de um ano para o outro, com os alunos compreendendo cada vez menos e desinteressando-se cada vez mais. Hoje a imensa maioria dos alunos das turmas de ensino médio são incapazes de acompanhar as aulas de matemática, geografia, filosofia, etc.
A conclusão disso tudo é um completo caos em sala de aula. Os professores já não conseguem ensinar, os alunos não conseguem aprender. Todas as dificuldades se somam e a escola encontra-se praticamente falida, incapaz de cumprir sua função social.
O desastre levou o governo do Estado a tomar medidas. Entretanto, no lugar de admitir a responsabilidade das administrações anteriores – de seu próprio partido – e atacar os problemas principais citados, a falta de investimentos e a “aprovação automática”, preferiu arrumar outros culpados, os professores! E desprezando a experiência de quem vive diariamente a escola pública, no contato direto com a comunidade, nas atividades de sala de aula, assim como desprezando também a opinião dos pais e alunos, assumiu por si mesmo a tarefa de “melhorar” o ensino, de forma unilateral, particular e anti-democrática, ignorando os problemas reais, culpando os profissionais e ignorando sua própria responsabilidade como origem da maior parte dos problemas que enfrentamos.
Como primeira medida, centralizou-se todo o poder e as decisões na Secretaria da Educação, elevando a secretária ao status de “portadora da verdade” sobre a escola e sobre suas soluções, e onde técnicos, burocratas e acadêmicos, muitos dos quais jamais pisaram em uma sala de aula de uma escola de periferia, simplesmente desprezam e ignoram os profissionais da educação que efetivamente conhecem os problemas e possíveis soluções a serem tentadas. A partir de números e estatísticas, que o tecnocrata ignorante da realidade precisa produzir a partir de incontáveis provas e avaliações, mas cujos resultados são amplamente conhecidos e óbvios a qualquer professor com o mínimo de experiência na educação pública, são tomadas medidas sem qualquer discussão com os professores, pais, alunos e comunidade. Ao modo dos piores regimes autoritários, em nome da eficiência se ignora e se contraria todos os princípios básicos da educação e da democracia, jogando no lixo a própria lei que versa sobre a construção participativa da escola.
Mas que idéias são essas que o governo aplica sem consultar ninguém e sem legitimidade? As de que a escola se assemelha à uma fábrica, de que os alunos são produtos para atender ao mercado de trabalho que pede mão-de-obra barata e genérica – nada de médicos ou engenheiros -, de que o professor deve ser um operário barato e de fácil reposição, que cumpra ordens sem questionar e que ensine seus alunos a se comportarem aceitando passivamente tudo o que é imposto. Em resumo, o lugar da escola pública não é o de formar pessoas conscientes ou um trabalhador qualificado que possa trabalhar em hospitais, indústrias ou como pesquisador de alta tecnologia, para isso existem as escolas privadas onde estuda a classe média e alta. Na escola pública, para as pessoas de baixa renda, oferece-se um ensino de baixa qualidade, barato e precário. Com apostilas de péssima qualidade e conteúdo questionável, que infantilizam os alunos, onde não existe o desenvolvimento do senso crítico, apenas aprende-se uma doutrina elaborada por quem ocupa a Secretaria da Educação e representa esse governo. Um ensino único e uniforme, que destrói a diversidade de pensamentos e de culturas, que joga a formação e a liberdade dos professores no lixo. O ideal imposto é o do adestramento de um trabalhador genérico para o setor de serviços. O aluno deve aprender a ler tabelas, interpretar gráficos, lidar com informações, usar o básico de um computador, porque é esse tipo de habilidade que “o mercado exige” da população mais pobre, que terá seus lugares reservados como serventes, auxiliares, vendedores, repositores de mercadorias e por aí afora. É impensável uma formação básica que permita a esse aluno cursar uma faculdade mais especializada. Esses empregos são poucos, e já estão reservados para a classe média-alta, que pode pagar o custo maior dessa educação. Quando um ou outro “talento” se sobressair em meio ao cenário de extermínio do ensino público, esse será “pescado” por programas especiais ou cursos técnicos, que concederão um certificado que o identificará, que, como quem separa o joio do trigo, o diferenciará dos outros alunos, que serão jogados na vala comum do ensino de baixa qualidade. E, assim, a desigualdade social se reproduz e perpetua.
Quanto ao professor, esse é transformado em bode expiatório de todas as mazelas, é amarrado e amordaçado. No lugar do investimento em condições de trabalho, sobrecarrega-se ainda mais suas atividades, já impossíveis. Decretos governamentais não perguntam o motivo dos professores faltarem e quantos o fazem. Limitam as faltas sem qualquer critério, prejudicando aqueles que realmente têm problemas sérios. No lugar de prover melhores condições e regras para que cada professor se dedique a uma única escola e adapte-se, proíbem-se as transferências, mesmo que seja impossível ao professor continuar fazendo seu trabalho na unidade em que se encontra. No lugar de reduzir o trabalho e aumentar a qualidade e a dedicação, impõe-se uma sobrecarga e um ritmo de trabalho cada vez mais irreal e insano, deteriorando ainda mais as condições de trabalho e jogando para fora da instituição os melhores e mais jovens professores, entre os quais aqueles recentemente concursados e completamente desiludidos. Hoje, pela falta de condições de trabalho, a imensa maioria dos professores pensa em abandonar as escolas, entre os quais me incluo, apesar de saber que aqui seria o meu lugar.
E aqui chegamos à conclusão. Talvez essa greve seja o último suspiro de uma instituição falida e destruída. Uma resposta tímida a um processo de segregação das populações mais pobres, que antes confiavam na escola como forma de transformação de suas vidas, mas que transformou-se apenas numa forma de determinar uma posição subordinada dentro de uma sociedade historicamente desigual e injusta. Não, o aluno pobre jamais disputará as vagas em publicidade ou engenharia em pé de igualdade, não no que depender da escola pública. E as classes média e alta, com seus filhos estudando em escolas particulares, pouco se importam e se fazem de desentendidas. Afinal, neste país, por mais que reclamem, paga-se barato pelos privilégios que a desigualdade proporciona em uma sociedade economicamente selvagem. Frente a isso, acredito que nesse momento o mais importante ensinamento que um professor possa dar ao seu aluno, e que recupera um mínimo de dignidade para ambos, seja o de descruzar os braços e enfrentar a correnteza, de encarar o futuro com olhos abertos e atentos, e de, se for derrubado, que o seja com a cabeça erguida.
São Paulo, 25 de Junho de 2008
Luciano Nunes Malheiro
Escola Estadual Tarcísio Álvares Lobo
Professor Efetivo da Rede Pública do Estado de São Paulo
Disciplinas de Filosofia e História
25 de junho de 2008
Às vezes tudo muda e continua tudo no mesmo lugar...
Revelado o significado da palavrinha “até”, anteposta ao valor do reajuste anunciado pelo governo aos professores: na verdade, a cifra de 12% só se atinge levando em conta a incorporação da Gratificação de Trabalho Educacional (GTE), pois o aumento real será de pouco mais de 5%, de acordo com a própria Folha de São Paulo. Desde o último reajuste, em 2005, a inflação medida pelo INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor) foi de 13,6%.
O governo propôs ainda mudanças inócuas no famigerado Decreto 53. Pretende aumentar o limite de faltas de 10 para 12, como se o problema fosse o cálculo mais “justo” desse limite. Será que Hitler teria sido mais justo se em vez de eliminar seis milhões de judeus tivesse exterminado apenas três? Sim, a comparação é retórica, mas matematicamente correlata. Outra alteração inteligentemente proposta implicará em que a lei não retroaja, isso é, só será válida para os professores que ingressarem nos próximos concursos! Ah, agora sim, isso muda totalmente as coisas! Vamos tirar o chapéu, os caras realmente leram o Nicolau Maquiavel direitinho.
O governo propôs ainda mudanças inócuas no famigerado Decreto 53. Pretende aumentar o limite de faltas de 10 para 12, como se o problema fosse o cálculo mais “justo” desse limite. Será que Hitler teria sido mais justo se em vez de eliminar seis milhões de judeus tivesse exterminado apenas três? Sim, a comparação é retórica, mas matematicamente correlata. Outra alteração inteligentemente proposta implicará em que a lei não retroaja, isso é, só será válida para os professores que ingressarem nos próximos concursos! Ah, agora sim, isso muda totalmente as coisas! Vamos tirar o chapéu, os caras realmente leram o Nicolau Maquiavel direitinho.
22 de junho de 2008
A polícia militar não sabe contar ou a mídia é mentirosa?
Estive Sexta-Feira (20/06/2008), na Assembléia da Apeoesp no vão do Masp, fiquei impressionado com a quantidade de professores que participaram do ato seguindo em passeata rumo a praça da República unificando com o ato das entidades representantes do magistério paulista, mas o que me irrita é o fato de a mídia e polícia militar anuciarem que havia só 8 mil pessoas na manifestação. Segundo o cálculo do sindicato e minha estimativa estávamos em pelo menos 50 mil professores, alunos e até pais de alunos. Abaixo tô postando algumas fotos que atestam o o que na realidade ocorreu:


Professor Rogério na Assembléia no vão do MASP
Vista do início da passeata
Outra vista da saída da passeata
Passeata passando em frente ao MASP
Professores tomando a Paulista
Pelego, s.m., Bras. Fig.

Há um termo depreciativo bastante usado no jargão sindical para se referir a líderes ou representantes que defendem dissimuladamente os interesses do empregador ao invés de lutar pelos interesses da classe: pelego. Por extensão, esse termo passou a se aplicar a todo que qualquer membro de qualquer categoria, que, de uma forma ou de outra, aberta ou secretamente, consciente ou inconscientemente, toma atitudes que vão de encontro aos interesses da própria categoria a que pertence. Por exemplo, pode-se corretamente aplicar essa gíria aos professores que se recusam a fazer greve quando a situação o exige.
Aliás, parece que professor só faz greve de fome. Mas como a maioria é constituída por mulheres, talvez pensem que é regime e já estão acostumadas mesmo. É engraçado ouvir os motivos que cada um racionaliza para não entrar em greve. A maioria porque só entraria se os outros entrassem (mas se os outros decidissem entrar, logo achariam algum outro argumento melhor para não os seguir), outros porque não se sentem pessoalmente incomodados com a lei 53.037 (e se fingem de cegos para não ver que a greve é por muito, muito mais que isso), outros porque estão esperando o sindicato fazer uma programação das atividades (como se trabalhador fosse apenas massa de manobra e não tivesse autonomia para elaborar suas próprias formas de contestação), outros porque são OFA e para não perderem o emprego não podem ter mais de 15 ausências por ano (mesmo sabendo que uma greve, direito garantido pela Carta Magna, não conta como falta ordinária), outros porque são efetivos e não pretendem fazer greve para “ACT”, “eles que sejam competentes e passem no concurso pra se efetivar” (mas se a situação fosse inversa possivelmente apelariam para a solidariedade dos companheiros), e os últimos, finalmente, porque não adianta entrar em greve sozinhos. Pelegos, pelegos e pelegos! Parafraseando aquele dito popular segundo o qual cada povo tem o governo que merece, os professores do estado de São Paulo parecem ter a Secretária que (não) fazem por merecer.
Aliás, parece que professor só faz greve de fome. Mas como a maioria é constituída por mulheres, talvez pensem que é regime e já estão acostumadas mesmo. É engraçado ouvir os motivos que cada um racionaliza para não entrar em greve. A maioria porque só entraria se os outros entrassem (mas se os outros decidissem entrar, logo achariam algum outro argumento melhor para não os seguir), outros porque não se sentem pessoalmente incomodados com a lei 53.037 (e se fingem de cegos para não ver que a greve é por muito, muito mais que isso), outros porque estão esperando o sindicato fazer uma programação das atividades (como se trabalhador fosse apenas massa de manobra e não tivesse autonomia para elaborar suas próprias formas de contestação), outros porque são OFA e para não perderem o emprego não podem ter mais de 15 ausências por ano (mesmo sabendo que uma greve, direito garantido pela Carta Magna, não conta como falta ordinária), outros porque são efetivos e não pretendem fazer greve para “ACT”, “eles que sejam competentes e passem no concurso pra se efetivar” (mas se a situação fosse inversa possivelmente apelariam para a solidariedade dos companheiros), e os últimos, finalmente, porque não adianta entrar em greve sozinhos. Pelegos, pelegos e pelegos! Parafraseando aquele dito popular segundo o qual cada povo tem o governo que merece, os professores do estado de São Paulo parecem ter a Secretária que (não) fazem por merecer.
20 de junho de 2008
Secretaria anuncia reajuste salarial
A Secretaria de Educação de São Paulo anunciou um reajuste salarial de "até" (?) 12,2% para os professores da rede estadual de ensino. A Assessoria de Imprensa da Secretaria informou que o ajuste era previsto desde Março, data base da categoria, e portanto não tem nenhuma relação com a greve. O que será então que a Secretaria estava esperando para anunciá-lo??
A proposta será enviada para aprovação da Assembléia Legislativa, bem como um projeto para criar 70 mil novas vagas a professores, com jornada de 10 horas semanais. Ainda estamos muito longe de ver atendidas as principais reivindicações da categoria. Nesta sexta-feira (20) os rumos do movimento serão rediscutidos.
A proposta será enviada para aprovação da Assembléia Legislativa, bem como um projeto para criar 70 mil novas vagas a professores, com jornada de 10 horas semanais. Ainda estamos muito longe de ver atendidas as principais reivindicações da categoria. Nesta sexta-feira (20) os rumos do movimento serão rediscutidos.
18 de junho de 2008
Secretaria promete avaliar reajuste para professores até quinta
Ontem a secretária de Educação do estado, Maria Helena Guimarães de Castro, assumiu o compromisso de avaliar a proposta de reajuste salarial dos professores e de apresentar uma resposta até amanhã (quinta-feira), em reunião com representantes de sindicatos, chegando a propor aos professores estaduais que apresentem alternativas de aprimoramento ao famigerado decreto 53.037. A Apeoesp, porém, decidiu manter a mobilização, afim de conseguir 100% de adesão até o final da semana.
16 de junho de 2008
GREVE DOS PROFESSORES
Na última sexta-feira 13, os professores reunidos em assembleia na Praça da República aprovaram a proposta de greve com início imediato. A pauta de reivindicações é extensa, e, embora o principal deflagrador da greve tenha sido o Decreto 53.037, de 28 de Maio de 2008, é preciso lembrar que ele foi apenas a gota d'água, já que, além das péssimas condições com as quais os professores já convivem há muito tempo, é preciso lembrar os inúmeros ataques que vêm sendo feitos de longa data pelo governo tucano à categoria. Os mais recentes foram:
a) o Decreto 52.344, de 9 de Novembro de 2007, que alterou o tempo de efetivo exercício para obtenção de estabilidade, de 2 para 3 anos;
b) a Resolução SE-3, de 17 de Janeiro de 2008, que suspendeu o programa de bolsa para pós-graduação instituído pelo Decreto n° 48.298 de 1º de Dezembro de 2003;
c) o Decreto nº 52.719 de Fevereiro de 2008, que alterou as regras da concessão de bônus aos integrantes do Quadro do Magistério, que passou a ser em função unicamente da assiduidade e do índice de aprovação de alunos, e não da qualificação do professor;
d) a suspensão da autonomia garantida às escolas pela Lei de Diretrizes e Bases e imposição de um material de qualidade questionável e de uso compulsório;
e) a Resolução SE - 9, de 14 de Março de 2008, que redistribuiu o Adicional de Local de Exercício (ALE), fazendo com que professores de inúmeras Unidades Escolares tivessem seus vencimentos reduzidos, sem prévio aviso, em 20%;
f) a aprovação da Lei Complementar nº 1.041, de 14 de Abril de 2008, que limita o número de ausências por motivo médico a 6 por ano, não podendo exceder a 1 por mês.
E, finalmente, o referido Decreto 53.037, que, entre outras medidas igualmente equivocadas, impede a remoção dos professores em estágio probatório e mesmo dos efetivos que tenham sofrido qualquer sanção nos últimos cinco anos de exercício ou que tenham tido mais de 10 faltas durante o ano.
As principais reivindicações da Apeoesp, embora não devamos nos limitar a essa lista, são as seguintes:
*Revogação do Decreto 53037/08, que impõe vários prejuízos à categoria;
*Reajuste salarial;
*Um novo Plano de Carreira;
*Fim da aprovação automática;
*Liberdade de cátedra;
*Extensão do ALE para todas as unidades;
*Gestão democrática e autonomia da escola;
*No máximo 35 alunos por sala;
*Melhores condições de trabalho;
*Incorporação das gratificações com extensão aos aposentados;
*Concurso público estadual;
*Garantia de emprego e estabilidade a todos os professores.
Por mais traumática que possa ser uma greve, não pode ser pior do que continuar sofrendo as constantes agressões e o paulatino sucateamento das condições de trabalho que o governo vem promovendo. Sendo assim, um abraço a todos os que sustentarem a greve!
a) o Decreto 52.344, de 9 de Novembro de 2007, que alterou o tempo de efetivo exercício para obtenção de estabilidade, de 2 para 3 anos;
b) a Resolução SE-3, de 17 de Janeiro de 2008, que suspendeu o programa de bolsa para pós-graduação instituído pelo Decreto n° 48.298 de 1º de Dezembro de 2003;
c) o Decreto nº 52.719 de Fevereiro de 2008, que alterou as regras da concessão de bônus aos integrantes do Quadro do Magistério, que passou a ser em função unicamente da assiduidade e do índice de aprovação de alunos, e não da qualificação do professor;
d) a suspensão da autonomia garantida às escolas pela Lei de Diretrizes e Bases e imposição de um material de qualidade questionável e de uso compulsório;
e) a Resolução SE - 9, de 14 de Março de 2008, que redistribuiu o Adicional de Local de Exercício (ALE), fazendo com que professores de inúmeras Unidades Escolares tivessem seus vencimentos reduzidos, sem prévio aviso, em 20%;
f) a aprovação da Lei Complementar nº 1.041, de 14 de Abril de 2008, que limita o número de ausências por motivo médico a 6 por ano, não podendo exceder a 1 por mês.
E, finalmente, o referido Decreto 53.037, que, entre outras medidas igualmente equivocadas, impede a remoção dos professores em estágio probatório e mesmo dos efetivos que tenham sofrido qualquer sanção nos últimos cinco anos de exercício ou que tenham tido mais de 10 faltas durante o ano.
As principais reivindicações da Apeoesp, embora não devamos nos limitar a essa lista, são as seguintes:
*Revogação do Decreto 53037/08, que impõe vários prejuízos à categoria;
*Reajuste salarial;
*Um novo Plano de Carreira;
*Fim da aprovação automática;
*Liberdade de cátedra;
*Extensão do ALE para todas as unidades;
*Gestão democrática e autonomia da escola;
*No máximo 35 alunos por sala;
*Melhores condições de trabalho;
*Incorporação das gratificações com extensão aos aposentados;
*Concurso público estadual;
*Garantia de emprego e estabilidade a todos os professores.
Por mais traumática que possa ser uma greve, não pode ser pior do que continuar sofrendo as constantes agressões e o paulatino sucateamento das condições de trabalho que o governo vem promovendo. Sendo assim, um abraço a todos os que sustentarem a greve!
13 de junho de 2008
Parlamentares que disseram 'SIM' ao PLC 80/2007
Os parlamentares elencados abaixo votaram favoravelmente ao Projeto de Lei Complementar 80/2007, que limita o número de faltas médicas do professor estadual a 6 por ano. Você votou em algum deles??
DÁRCY VERA -- (DEM) RIB. PRETO darcyvera@al.sp.gov.br (atual candidata à Prefeitura de Ribeirão Preto)
ALDO DEMARCHI -- (DEM) RIO CLARO ademarchi@al.sp.gov.br
ANDRÉ SOARES -- (DEM) CAPITAL asoares@al.sp.gov.br
EDMIR CHEDID -- (DEM) BRAG. PAULISTA echedid@al.sp.gov.br
ELÍ CORREA FILHO -- (DEM) CAPITAL ecorrea@al.sp.gov.br
ESTEVAM GALVÃO -- (DEM) SUZANO egalvao@al.sp.gov.br
GIL ARANTES -- (DEM) BARUERÍ garantes@al.sp.gov.br
GILSON DE SOUZA -- (DEM) FRANCA deputadogilson@al.sp.gov.br
JOSÉ BRUNO -- (DEM) josebruno@al.sp.gov.br
JOÃO BARB. CARVALHO -- (DEM) BAURÚ joaobarbosa@al.sp.gov.br
MARCO BERTAIOLLI -- (DEM) MOGÍ DAS CRUZES mbertaiolli@al.sp.gov.br
MILTON LEITE FILHO -- (DEM) CAPITAL mleite@al.sp.gov.br
GERALDO VINHOLI -- (PDT) CATANDUVA/PENÁPOLIS gvinholi@al.sp.gov.br
HAIFA MADI -- (PDT) LITORAL haifamadi@al.sp.gov.br
JOSÉ BITTENCOURT -- (PDT) ABCD jbittencourt@al.sp.gov.br
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JORGE CARUSO -- (PMDB) CAPITAL jcaruso@al.sp.gov.br
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ANTONIO SALIM CURIATI -- (PP) CAPITAL scuriati@al.sp.gov.br
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GERALDO VINHOLI -- (PDT) CATANDUVA/PENÁPOLIS gvinholi@al.sp.gov.br
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12 de junho de 2008
Ato público unificado na Câmara Municipal RP
Hoje realizou-se na Câmara Municipal de Ribeirão Preto( fotos abaixo) um ato unificado da entidades representativas dos profissionais da educação do estado de São Paulo. O ato fez parte do calendário de lutas em favor de melhorias na educação e de melhores salérios para as categorias ligadas a educação. Estavam presentes representantes da Apeoesp, CPP,Afuse, Udemo e Apampesp que por sinal era a maioria no plenário da câmara,esta fato chamou-me atenção para duas coisas, primeiro a imobilidade da categoria por parte dos ativos e segundo a cruel ironia quando os professores aposentados deveriam estar em casa cuidando de descansar, devido aos ataques dos governos do PSDB e principalmente agora com José Serra os nos aposentados são obrigados a continuar na luta. Fico pensando o que será das lutas da categoria, quando não houver mais aposentadoria ou aposentados.
27 de maio de 2008
Carta à Secretária da Educação do Estado de São Paulo
Saudações, a carta abaixo foi um mensagem enviada por mim à Secretária de Educação do Estado de São Paulo após a retirada de um adicional do salário de milhares de professores, inclusive eu. A atitude do governo paulista revela a total falta de preocupação com os professores do Estado de São Paulo. Foram retirados 20% do nosso salário sem o minímo aviso prévio:
Exma. Sra. Secretária da Educação do Estado de São Paulo, Maria Helena Guimarães
Venho por meio deste e-mail externar minha consternação com os últimos acontecimentos do início do ano letivo. Ao voltarmos das férias fomos surpreendidos com a retirada do A.L.E. de nossa escola, ficamos aturdidos pois nossa escola encontra-se em uma área da alta vunerabilidade social, onde os problemas com drogas e violência são cotidianos, posso atestar isso pois residi no bairro 25 anos de minha vida e estudei na escola onde hoje leciono. Além das questões sociais, o que também credencia nossa escola ao adicional é a distância em relação a diversos bairros de nossa cidade, haja vista que nossa cidade cresce assustadoramente e o custo de transporte acompanha esse crescimento e muitos professores são obrigados a deslocar-se distâncias grandes arcando com os custos, já que nosso auxílio transporte é mínimo ou inexistente. Mas o que mais nos causou indignação foi a maneira abrupta, sem aviso, como foi retirado o A.L.E, pois assim como qualquer trabalhador merecíamos no mínimo um aviso, já que contamos com esse dinheiro para fazer face às nossas despesas (aluguel, prestações, financiamentos etc.) e está sendo uma situação de difícil gestão que está levando ao desespero e ao enfurecimento não só meu, mas de diversos colegas, como a senhora e sua acessoria já devem ter percebido após os vários e-mails que temos enviado. O que mais impressiona nesta triste situação de descaso com o corpo docente não só de nossa escola como das demais de onde o A.L.E foi retirado, é a aparente insensiblidade da secretaria somada à incompetência política em perceber a tamanha insatisfação que a tal malfadada atitude teria na rede. Desculpe-me a sinceridade, mas nem na ditadura militar os governantes eram capazes de um erro de avaliação tão sério em relação ao funcionalismo. Encerro esta mensagem com a esperança de que a senhora reveja os critérios sobre A.L.E, e com uma sugestão: é politicamente mais lucrativa para o governo a incorporação do beneficio a todas as escolas da rede, do que ter que lidar com pessoas que até então nunca se manifestaram contra a política da Secretaria. Seus antecessores parece-me que foram mais sábios ao lidar com a classe docente do Estado de São Paulo.
Obrigado pela atenção,
Prof. Rogério Fernando Clementino de Alvarenga. E.E. Prof. Dr. Oscar de Moura Lacerda- Ribeirão Preto – São Paulo.
Exma. Sra. Secretária da Educação do Estado de São Paulo, Maria Helena Guimarães
Venho por meio deste e-mail externar minha consternação com os últimos acontecimentos do início do ano letivo. Ao voltarmos das férias fomos surpreendidos com a retirada do A.L.E. de nossa escola, ficamos aturdidos pois nossa escola encontra-se em uma área da alta vunerabilidade social, onde os problemas com drogas e violência são cotidianos, posso atestar isso pois residi no bairro 25 anos de minha vida e estudei na escola onde hoje leciono. Além das questões sociais, o que também credencia nossa escola ao adicional é a distância em relação a diversos bairros de nossa cidade, haja vista que nossa cidade cresce assustadoramente e o custo de transporte acompanha esse crescimento e muitos professores são obrigados a deslocar-se distâncias grandes arcando com os custos, já que nosso auxílio transporte é mínimo ou inexistente. Mas o que mais nos causou indignação foi a maneira abrupta, sem aviso, como foi retirado o A.L.E, pois assim como qualquer trabalhador merecíamos no mínimo um aviso, já que contamos com esse dinheiro para fazer face às nossas despesas (aluguel, prestações, financiamentos etc.) e está sendo uma situação de difícil gestão que está levando ao desespero e ao enfurecimento não só meu, mas de diversos colegas, como a senhora e sua acessoria já devem ter percebido após os vários e-mails que temos enviado. O que mais impressiona nesta triste situação de descaso com o corpo docente não só de nossa escola como das demais de onde o A.L.E foi retirado, é a aparente insensiblidade da secretaria somada à incompetência política em perceber a tamanha insatisfação que a tal malfadada atitude teria na rede. Desculpe-me a sinceridade, mas nem na ditadura militar os governantes eram capazes de um erro de avaliação tão sério em relação ao funcionalismo. Encerro esta mensagem com a esperança de que a senhora reveja os critérios sobre A.L.E, e com uma sugestão: é politicamente mais lucrativa para o governo a incorporação do beneficio a todas as escolas da rede, do que ter que lidar com pessoas que até então nunca se manifestaram contra a política da Secretaria. Seus antecessores parece-me que foram mais sábios ao lidar com a classe docente do Estado de São Paulo.
Obrigado pela atenção,
Prof. Rogério Fernando Clementino de Alvarenga. E.E. Prof. Dr. Oscar de Moura Lacerda- Ribeirão Preto – São Paulo.
21 de abril de 2008
Entre alhos e bugalhos

Diz a lenda que um czar, verificando que a província com maior incidência de doenças era também a que contava com o maior número de médicos, ordenou imediatamente que todos eles fossem executados. Lenda embora, não deixa de constituir um excelente exemplo de confusão tosca entre correlação e causalidade, pois seria mais ou menos como proibir a venda de repelente nas farmácias cariocas por constatar que seu aumento coincidiu com a proliferação dos mosquitos transmissores do dengue. Tendemos a acreditar que nenhuma das nossas autoridades públicas seja de fato capaz de um engano dessa monta, mas quando se trata de estabelecer relações um pouco mais complexas que as anteriores não é difícil que pessoas inteligentes cometam, por vezes, erros crassos. Tomem como exemplo a nova política da Secretária da Educação, Maria Helena Guimarães de Castro. Sua equipe percebeu que o declínio exponencial da qualidade do ensino público começou a ocorrer a partir da promulgação da Lei de Diretrizes e Bases (LDB), em 1996. Entre outras coisas, essa lei conferiu às escolas uma relativa autonomia na elaboração de seus projetos pedagógicos. O que fez a Senhora Secretária? Decidiu que as escolas não devem mais ter autonomia, e ordenou a elaboração de um material didático que todos os professores de todas as escolas do Estado de São Paulo passaram a ser obrigados a utilizar! Há fatos tão absurdos que parecem não merecer comentários – e como ninguém fala nada, eles continuam existindo. Para não incorrer nesse erro, permitam-me explicar no que consiste o da Secretária, por mais óbvio que possa parecer.
Primeiramente, ela acredita que a causa do insucesso escolar em massa seja a autonomia dada às escolas há uma dúzia de anos, quando na verdade esse foi um dos pontos positivos da LDB. Muito provavelmente o insucesso escolar só não é maior hoje em decorrência dessa autonomia, de tal maneira que sua extinção apenas tende a piorar a situação. Segundo, desconsidera totalmente fatores que são realmente determinantes do insucesso escolar, como os próprios atores do processo educacional, para atribuir a “culpa” ao material utilizado. O discurso oficial apregoa que a escola deve ser uma instituição que aprende, mais do que apenas uma instituição que ensina. Muito bonito, e estamos inteiramente de acordo. Mas em vez de se investir em cursos de aperfeiçoamento para os professores e gestores da escola, simplesmente remete-se para as escolas uma coleção de revistas de receitas prontas, de uso compulsório e, pior, de concatenação duvidosa. O que será que se quer ensinar às escolas, senão o mais puro autoritarismo? Valhei-nos, São Foucault! Por que não investir de verdade nos professores, possibilitando-lhes maior tempo livre para elaboração planos de aula mais efetivos? Por que não investir nos alunos, diminuindo seu número por sala de aula, por exemplo? Por que não investir na estrutura física das escolas, criando bibliotecas ou laboratórios de informática com número suficiente de computadores? Não seria, aliás, mais logicamente consistente dar esse passo antes de obrigar ao uso de um material recheado de endereços eletrônicos? O que vemos, ao contrário disso, é uma ação desesperada e aparentemente sem direção da Secretaria da Educação, dando continuidade ao programa emergencial de “recuperação” do início do ano, e transformando, dessa maneira, a totalidade do Ensino Médio numa recuperação prolongada.
Vejo, no entanto, um ponto positivo na nova política: sua aplicação prova que o Estado finalmente reconhece que a educação está falida, e que todas as políticas implementadas durante a chamada “década da educação” conduziram a esse desastre. Se as pessoas conseguirem pelo menos perceber isso, haverá ainda uma chance de consertar o estrago.
Primeiramente, ela acredita que a causa do insucesso escolar em massa seja a autonomia dada às escolas há uma dúzia de anos, quando na verdade esse foi um dos pontos positivos da LDB. Muito provavelmente o insucesso escolar só não é maior hoje em decorrência dessa autonomia, de tal maneira que sua extinção apenas tende a piorar a situação. Segundo, desconsidera totalmente fatores que são realmente determinantes do insucesso escolar, como os próprios atores do processo educacional, para atribuir a “culpa” ao material utilizado. O discurso oficial apregoa que a escola deve ser uma instituição que aprende, mais do que apenas uma instituição que ensina. Muito bonito, e estamos inteiramente de acordo. Mas em vez de se investir em cursos de aperfeiçoamento para os professores e gestores da escola, simplesmente remete-se para as escolas uma coleção de revistas de receitas prontas, de uso compulsório e, pior, de concatenação duvidosa. O que será que se quer ensinar às escolas, senão o mais puro autoritarismo? Valhei-nos, São Foucault! Por que não investir de verdade nos professores, possibilitando-lhes maior tempo livre para elaboração planos de aula mais efetivos? Por que não investir nos alunos, diminuindo seu número por sala de aula, por exemplo? Por que não investir na estrutura física das escolas, criando bibliotecas ou laboratórios de informática com número suficiente de computadores? Não seria, aliás, mais logicamente consistente dar esse passo antes de obrigar ao uso de um material recheado de endereços eletrônicos? O que vemos, ao contrário disso, é uma ação desesperada e aparentemente sem direção da Secretaria da Educação, dando continuidade ao programa emergencial de “recuperação” do início do ano, e transformando, dessa maneira, a totalidade do Ensino Médio numa recuperação prolongada.
Vejo, no entanto, um ponto positivo na nova política: sua aplicação prova que o Estado finalmente reconhece que a educação está falida, e que todas as políticas implementadas durante a chamada “década da educação” conduziram a esse desastre. Se as pessoas conseguirem pelo menos perceber isso, haverá ainda uma chance de consertar o estrago.
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