8 de agosto de 2009
Passado e Presente
14 de julho de 2009
O livro didático, sob o risco da desnacionalização

A denúncia de doutrinação ideológica em livro didático distribuído pelo MEC, feita pelo diretor de jornalismo da TV Globo, Ali Kamel, parece ter trazido a público muito mais do que pretendia o autor. Ao fazer emergir o jogo bruto de interesses financeiros em que se digladiam as grandes editoras pelo controle do mercado nacional de livros didáticos, Ali Kamel presta um desserviço à causa da oposição ao governo Lula, que é também a sua, levantando inadvertidamente a ponta do véu que encobre a promiscuidade entre gente tucana e o capital estrangeiro, pela desnacionalização do setor.
Como se recorda, em artigo publicado no jornal O Globo – depois reproduzido por outros jornais – Ali Kamel condena a coleção didática Nova História Crítica, de Mário Schmidt, por contrabando ideológico nas escolas públicas. No artigo, também insinua que o MEC incentiva a adoção da obra. Dá assim testemunho público de sua ignorância no tema, por desconhecer que livros didáticos da escola pública são antes avaliados por especialistas, em sistema de rodízio, organizados em comissões independentes, constituídas por departamentos das universidades públicas, sem interferência alguma do governo, para serem, depois, escolhidos livremente pelos professores. O MEC limita-se a reunir tais avaliações, imprimi-las e distribuí-las aos professores, sob a forma de Guia do Livro Didático, como contribuição para facilitar o trabalho de seleção. Lembre-se de que a escolha do livro didático é prerrogativa inalienável dos professores.
Não é o caso aqui de entrar na polêmica sobre o conteúdo do livro - amplificada pela grande mídia em razão de seu suposto potencial de mobilização contra o governo Lula -, pois é sabido que o Brasil conta com um dos melhores sistemas de avaliação de livros didáticos do mundo, sistema criticado pelas grandes editoras quando de sua adoção em 1996, pelo risco de “controle ideológico” , segundo lembra Maria Encarnação Beltrão Sposito, professora de Geografia da Universidade Estadual Paulista e avaliadora do Programa Nacional do Livro Didático.
Mas não é apenas a desculpa do controle ideológico que leva parte das editoras a se insurgir contra o controle de qualidade sobre o livro didático, exercido pelo sistema de ensino público, sob o patrocínio do MEC. A liberdade atual de que desfruta o mercado de livros didáticos não convém às grandes editoras, constituídas em oligopólio multinacional. Estas não se conformam com o processo independente e democrático de avaliação e de seleção que há cerca de uma década e meia passou a presidir às compras do MEC. O seu caráter descentralizado, envolvendo dezenas de instituições públicas de ensino superior, distribuídas por todo o País, e dezenas de milhares de professores, já não permite a investida sorrateira e centralizada do lobby junto às autoridades de Brasília pela conquista do butim, como ocorreu durante décadas no passado.
Isso não quer dizer que a política de livros didáticos se tenha libertado inteiramente da influência mercenária exercida historicamente pelas grandes editoras: a cada três anos, o governo brasileiro volta ao mercado para a compra de novos livros, enquanto nos EUA, por exemplo, as compras ocorrem somente a cada dez. Lá, além do conteúdo, também o manuseio e a conservação do livro, por parte dos alunos, servem a propósitos pedagógicos: ensinam sobre a necessidade de se gastar bem o dinheiro público na sua compra. Por isso, depois de utilizados, os livros são passados adiante, para os alunos entrantes, enquanto no Brasil são considerados descartáveis, para propiciar o retorno amiúde do governo ao mercado, para novas compras.
São tais características, entre outras, que fazem do mercado brasileiro do livro didático uma nova China do mundo editorial - o mais cobiçado dentre todos, e por ser também o maior do mundo. O Programa Nacional do Livro Didático-PNLD conta em 2007 com orçamento de R$ 620 milhões - uma cifra vultosa, mas justificável como investimento que faz chegar a 30 milhões de alunos de escolas públicas, de graça, 120 milhões de exemplares. Trata-se de um mercado que cresce a 20% ao ano, o dobro da média do mercado editorial – didáticos e não didáticos.
É sobre esse pano de fundo que se deve analisar a investida de Kamel contra uma coleção didática, de grande sucesso de vendas, segundo a estimativa do mercado. No que pareceu ser uma ação orquestrada, segundo o acúmulo de evidências, enquanto Kamel disparava o seu ataque numa página de O Globo, o jornal espanhol El País estampava no dia seguinte em sua manchete (19/09/2007): “Brasil entrega a 750.000 estudiantes un polémico manual de historia” “El libro de texto ensalza el comunismo y la revolución cultural china”. Ao mesmo tempo, o ex-ministro da Educação, o deputado federal Paulo Renato de Souza (PSDB-SP) - durante cuja gestão o “livro comunista” havia sido incluído no rol dos recomendados no Guia do Livro Didático, do MEC -, cuidava de divulgar as denúncias no site de seu partido, além de criticar à imprensa um suposto relaxamento do atual governo na defesa dos critérios de independência e neutralidade adotados pelo MEC.
Por mais estranho que possa parecer o zelo pressuroso de um jornal espanhol para com a boa educação das crianças brasileiras, difícil é assumir como a mais plausível a hipótese de casualidade na coincidência entre os fatos. Com certeza, El Pais não visava, com a divulgação do “escândalo”, levar coisa nova para o seu leitor vinda do Brasil: não é de hoje que se contam às centenas os livros desaconselhados pelos especialistas a serviço do MEC – e está longe de ser a primeira vez que o MEC intervém para desautorizar a sua utilização no ensino público.
Ocorre que El País é propriedade da empresa Santillana, que controla a editora Moderna – uma das que mais interesse tem no mercado brasileiro de livro didático, um mercado concentrado em mãos de umas poucas grandes editoras, dentre as quais a espanhola. Ocorre também que a Santillana conta em seu corpo de consultores com o ex-ministro da Educação, Paulo Renato de Souza, um dos responsáveis na gestão FHC pela decisão de estender a todos os estudantes da primeira à quarta séries o acesso gratuito aos livros didáticos de Português, História e Geografia, Ciências e Matemática – decisão que viria a converter o governo federal no maior comprador de livros didáticos, e o mercado brasileiro, no maior do mundo, como deve ter previsto o ex-ministro da Educação, antes de se incorporar às hostes da Santillana.
Além de contratar o ex-ministro tucano da Educação, a Santillana soube fortalecer a promiscuidade, assim constituída, entre os seus interesses e o de ex-membros do governo FHC, ao contratar também Mônica Messenberg, braço direito de Paulo Renato de Souza no MEC na condição de executiva responsável pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação. Nos dias seguintes à sua saída do MEC, sem respeitar o período ético e legal da quarentena, Mossenberg passou a ocupar alto cargo executivo no conglomerado Santillana, como diretora de assuntos institucionais (leia-se: lobby junto a governos, secretarias estaduais e municipais de Educação) da editora Moderna.
Acrescente-se ao rol de coincidências o fato de a Geração Editorial, responsável pela produção da Nova História Crítica, ser uma das poucas editoras de porte ainda em mãos do capital nacional.
A escaramuça da Santillana contra o concorrente nacional é apenas mais um lance na disputa pelo controle do mercado, da qual participam também outras empresas multinacionais e fundos de investimentos norte-americanos. A desnacionalização da produção do livro didático, mediante colaboração tucana - e o risco assim posto à autonomia e à soberania nacional -, é também apenas um dos muitos desafios que deveriam constar do debate sobre a responsabilidade do Estado na definição de uma política pública do livro didático, que o governo Lula e o meu partido estão a dever à nação.
Durante muitos anos, a produção de livros didáticos foi conduzida em primeira pessoa pela iniciativa privada, sem a participação do governo, que se limitava a sancioná-la em suas compras, produção sem compromisso com critérios de qualidade educacional e com a adequada informação científica. As escolhas feitas pelo Ministério da Educação não assentavam sobre parâmetros e critérios objetivos e transparentes, deixando caminho aberto ao tráfico de influência e à livre pressão das grandes editoras, em geral associadas a políticos e cujo número não passava historicamente de meia dúzia.
Um tal faroeste - que bem poderia simbolizar o ideal liberal do livre mercado -, encontrou o começo de seu fim na discussão nacional do documento “Definição de Critérios para Avaliação dos Livros Didáticos”, publicado em 1994 pelo MEC, em parceira com a Fundação de Assistência ao Estudante e com a Unesco. Seminários e reuniões, realizados a seguir, trouxeram subsídios para a definição dos novos critérios de avaliação. Encerrada a fase de discussão, foi constituída uma equipe de professores, para realizar a análise dos livros. Cada publicação passou a ser avaliada por dois docentes. Se um parecer era contrário ao outro, o livro era submetido à avaliação de um terceiro especialista. Publicações como as de Ciências, das quais fazem parte conhecimentos de diferentes áreas (biologia, astronomia, física etc.), chegaram a ser analisadas até por oito professores. Assim se deu início ao processo de avaliação independente e democrática dos livros didáticos no Brasil, atualmente materializada nos Guias do Livro Didático, distribuídos pelo MEC. Foi um grande passo na construção de uma política do livro didático. Falta muito, porém.
A mais recente ameaça ao processo independente e democrático de seleção e escolha do livro didático, sob a coordenação do MEC, surge de grupos educacionais - empresas que exploram a educação privada e que ingressam agora também no setor público, mediante a venda de material didático diretamente às prefeituras, para ser distribuído aos alunos nas escolas. Trata-se de um conluio entre prefeitos e grupos educacionais, que tem por objetivo neutralizar e reverter na prática as diretrizes e normas sobre o livro didático estabelecidas pelo MEC, trazendo de volta o tráfico de influência, a ausência de controle de qualidade e eventual corrupção no processo de compra.
Como expediente para escapar ao controle do MEC, prefeitos e empresas entendem-se diretamente na negociação de “apostilas” e “material pedagógico” - eufemismos utilizados para dispensar o governo federal de prover às escolas do município os livros didáticos avaliados pelos especialistas. Para as prefeituras, a compra desse material representa um custo adicional para o orçamento municipal, já que o MEC distribui gratuitamente livros para o ensino fundamental. O argumento utilizado pelos prefeitos para justificar a realização do negócio diretamente junto às editoras é que o material didático adquirido representa um “diferencial de qualidade”. Segundo informações divulgadas pela imprensa, o negócio do “diferencial de qualidade” entre prefeitos e grandes editoras tem-se revelado como um dos mais rentáveis e auspiciosos, apresentando resultados financeiros que, a cada ano, chegam a 50% acima dos do ano anterior. Assim, entra pela porta dos fundos o que o MEC nos últimos anos havia conseguido expelir pela porta da frente.
São elementos suficientes para justificar a necessidade de se promover um debate nacional sobre o papel do Estado na definição de uma política nacional do livro didático.
Rui Falcão, 63 anos, advogado e jornalista, é deputado estadual pelo PT. Foi deputado federal, presidente do PT e secretário do Governo da prefeita Marta Suplicy.
Fonte: Blog do Favre
A propósito, você sabe o que tem em comum esses nomes: Positivo, Moderna, Santillana, Objetiva, Salamandra, Richmond, Sistema Uno de Ensino, AVALIA e Paulo Renato Souza? Descubra aqui.
1 de julho de 2009
Pressão pela licenciatura

As instituições de ensino superior começam a colher os benefícios da aprovação, no ano passado, da lei nacional que determina a inclusão das disciplinas de Filosofia e de Sociologia na grade curricular do ensino médio, após décadas fora do currículo obrigatório. O aumento da procura pelos cursos de licenciatura começa a ser notado e a expectativa é que se intensifique a médio prazo. Além disso, um outro fenômeno se desenha: alunos e ex-alunos desses cursos pressionam as instituições para a abertura de licenciaturas.
"Desde 2005 o movimento cresceu, mas o impacto daqui por diante será bem mais significativo", acredita o coordenador do curso de Filosofia da Universidade Metodista de São Paulo, Daniel Pansarelli.
Dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anisio Teixeira (Inep) confirmam a trajetória exponencial. Em 2005, o total de professores de Filosofia formados no Brasil foi de 25 contra 346 de História, por exemplo. Nos dois anos seguintes, esse número saltou para 70 e 75, respectivamente. Somados, os formandos em Sociologia e Ciências Sociais chegaram a 28 em 2005; 27 em 2006 e 29 em 2007. As estatísticas do ano passado ainda não foram fechadas.
Para se ter uma ideia da evolução, há uma década apenas dez alunos concluíam o curso de Filosofia na Universidade Metodista, na qual a média de ingressantes hoje é de 60. "Há dois anos, o número de formandos varia entre 30 e 40", diz Pansarelli. Isso porque, segundo o coordenador, alguns estados incluíram a disciplina antecipadamente à lei. Ele acredita que os reflexos serão maiores em Sociologia, embora ainda não tenha base de comparação por ter lançado o curso há menos de dois anos. "Não deu tempo de formar nenhuma turma, mas a tendência é de um mercado cada vez mais atrativo, inclusive para pós-graduação", acredita.
A demanda também não deve ficar restrita ao ensino médio. O diferencial de concorrência das escolas privadas, na maioria dos casos, era justamente a oferta de disciplinas como Sociologia e Filosofia. Agora, como toda a rede pública passou a oferecê-las, a expectativa é que os colégios particulares abram espaço para as disciplinas também no ensino fundamental. Por isso, é crescente a demanda da oferta de licenciatura para bacharéis e licenciados em outras áreas.
Para suprir a carência de todo o território nacional, a Metodista lançou há dois anos e meio cursos de licenciatura a distância. A cada semestre uma nova turma é formada, além da presencial, que neste ano está com 100% de ocupação. "Existem discussões para a criação de uma segunda turma, mas não temos estrutura física para isso neste momento", diz Pansarelli.
Na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), os alunos matriculados pressionam para que o curso de bacharelado de Ciências Sociais seja estendido também à licenciatura, conta a professora Sandra Machado Lunardi Marques, do Departamento de Fundamentos da Educação da PUC-SP. O atual currículo de Filosofia, assim como o anterior, oferece licenciatura, embora a opção da maioria seja pelo bacharelado.
Um impulso para o mercado, segundo Sandra, é a quantidade de aulas de Filosofia, Sociologia ou Psicologia existentes no ensino médio. "Dado o número insuficiente de licenciados em Filosofia e Sociologia, essas disciplinas têm sido ministradas por professores de outras áreas, como Letras e Pedagogia; portanto, existe uma carência de fato pelos licenciados em questão", diz. Ela destaca, porém, que a instituição está preparada para atender à possível demanda, pois tem professores capacitados para isso.
Na Uniban, a procura pelo curso de Filosofia, lançado em 2008, também aumentou sensivelmente este ano. A tendência é de evolução, avalia o coordenador pedagógico da instituição, Adalberto Botarelli. "Foi uma conquista significativa, mas ainda há outras fronteiras, como instituir uma jornada ampliada e, consequentemente, de melhor qualidade", diz.
A opinião de Botarelli é semelhante à de Sandra. Ambos chamam a atenção para o quadro desenhado pela falta de licenciados em Filosofia e Sociologia. Estima-se que mais de 40% dos docentes do Estado de São Paulo sejam temporários, ministrando disciplinas que não cursaram, sem ter a certeza de assumi-las no próximo ano. Daí a baixa procura desses professores por cursos de formação continuada. "Também são carreiras que nunca serão de massa pela demanda teórica", afirma Botarelli.
Mesmo assim, trata-se de um mercado em expansão seja para o licenciado, seja para o bacharel. "A esfera pública, o setor privado e o chamado terceiro setor sentem uma necessidade crescente por profissionais que saibam dar respostas aos problemas e às demandas que vêm da sociedade", acredita o diretor acadêmico da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Fespsp), Aldo Fornazieri.
Segundo ele, a revolução tecnológica e a globalização, com suas complexas consequências, estão fazendo também com que o século XXI seja o século de uma crescente mediação de sociólogos, cientistas políticos, antropólogos e cientistas sociais. "Sem uma forte intervenção da área do conhecimento social, as sociedades caminhariam de forma crescente para disfunções e anomalias", diz.
Embora não possa mensurar esse crescimento, Fornazieri conta que na Fespsp existe procura e pressão muito forte por parte dos alunos e ex-alunos para que a instituição ofereça o curso de licenciatura. "Estamos nos momentos finais de elaboração e aprovação do projeto pedagógico que reforma o nosso curso de bacharelado em Sociologia e Política. Lançaremos um curso de dupla certificação: bacharelado e licenciatura", adianta.
A ideia é que os ingressantes do vestibular 2009/2010 já entrem nesse curso. A vantagem, segundo Fornazieri, será enorme. Além de se capacitar para lecionar, o aluno terá a certificação também no bacharelado. "O nosso aluno, como futuro professor, estará apto a proporcionar níveis importantes de compreensão da atual complexidade social ao estudante de nível médio, justamente por ser também um bacharel. E, como bacharel, estará capacitado tanto a exercer uma pedagogia deste mesmo entendimento complexo quanto para atuar como pesquisador, planejador social, gestor, assessor ou analista", observa.
A busca por esse profissional gabaritado ainda é uma dificuldade para os colégios de ensino médio na hora de preencher o quadro. "Profissionais portadores de um diploma de licenciatura em Sociologia ou Filosofia existem, mas pouquíssimos têm mostrado as habilidades necessárias para desenvolver junto aos adolescentes um curso realmente instigante", reclama o diretor de Ensino Médio do Colégio I.L.Peretz, Francisco Eduardo de Aguirra.
Rachel Cardoso, da Folha de São Paulo
14 de junho de 2009
Com esse salário, quem quer ser um professor?

9 de junho de 2009
Os professores levam mais uma paulada do Governo de São Paulo
Sem dúvida, duas medidas que deixam a nós, os educadores, muito contentes, já que tendem a acabar com o professor temporário e possibilitar que as escolas consolidem uma equipe de trabalho cooperativo de longo prazo e maior envolvimento docente com o projeto pedagógico da escola. Certamente são decisões que propiciam a melhora da qualidade do trabalho escolar.
No entanto, as notícias não terminam aí. Para nossa surpresa será criada uma Escola de Formação de Professores do Estado de São Paulo para ‘formar’ os docentes que forem aprovados no concurso. Isto é, só terá direito a dar aulas quem passar no curso de 4 meses na Escola. Portanto, não será suficiente ter sido aprovado no concurso.
Estamos frente a uma situação no mínimo esquisita, porque parece que o governo do Estado de São Paulo está abrindo um concurso para selecionar os melhores candidatos no qual nem ele acredita. Ou será que o governo parte do pressuposto de que a formação docente no Brasil é ruim? Ou, ainda, de que os futuros professores da rede paulista precisam de um doutrinamento para poder utilizar ‘corretamente’ as cartilhas no lugar de exercer responsável e criativamente a sua profissão?
Não seria mais adequado implementar ações que tornem a profissão docente bem mais atraente o que, sem dúvida, qualificaria a demanda? O que aconteceria se no lugar de inventar mais instâncias de seleção e de enquadramento se pensasse em melhorar os salários e em oferecer condições de trabalho dignas para um profissional que é responsável pela educação de nossas crianças e jovens?
Se a motivação real de todas estas mudanças é oferecer melhores condições institucionais para a aprendizagem dos alunos, sem dúvida a implementação de políticas de melhora real das condições de trabalho dos professores permitiriam também a reflexão coletiva sobre alguns aspectos bastante espinhosos, mas necessários para discutir a qualidade do ensino na escola pública. Um deles são os critérios de alocação dos docentes que, frente à necessidade de não dificultar ainda mais a vida do professor, não levam suficientemente em conta as necessidades institucionais e do público alvo.
Outra questão é a necessidade de repensar o formato do concurso público para professor de ensino básico. O argumento do governo de São Paulo para a implantação de uma segunda prova de seleção após o curso de qualificação é que a prova administrada no concurso é muito teórica. Nesse caso, pensar na reformulação do concurso para professor de ensino básico de forma que contemple a diversidade de competências necessárias para o bom desempenho docente, tais como conhecimento na área especifica de ensino, dos fundamentos educacionais, competência didática, etc., pode ser um começo de uma tentativa de melhorar as condições de seleção.
Por último e mais uma vez a formação continuada volta à tona. A Escola de Formação de Professores do Estado de São Paulo pretende focar a prática num curso massivo de 360 h para 10.000 professores no começo e posteriormente 50.000, o que implica que uma parte considerável de carga horária seja oferecida a distância. O debate sobre a deficiente qualidade da educação tem enfatizado a importância da melhora da formação básica e continuada dos docentes de todos os níveis de ensino. Ainda que o êxito da educação escolar seja resultado de um processo de múltiplas variáveis e que não pode ser reduzido de forma leviana à responsabilidade do professor, sem dúvida a formação de ‘formadores’ enfrenta hoje múltiplos desafios. Mas também não se pode reduzir de forma leviana estes desafios à necessidade de um mero treinamento que, além de bastante custoso, nada indica que possa chegar a ter um efeito significativo na sua atuação profissional.
Além disso, o governo de São Paulo retoma a proposta de submeter os professores temporários, que hoje representam 40% da rede, a uma prova anual. E os que não forem aprovados serão encostados em algum lugar dos estabelecimentos escolares, para não descumprir a lei.
Se for verdade que o exemplo educa, sem dúvida a atitude do governo do Estado está dando às novas gerações um péssimo exemplo de respeito aos outros. Mais uma vez os trabalhadores vão carregar nos ombros as conseqüências de políticas públicas antidemocráticas implementadas no Estado de São Paulo nas últimas décadas. Novamente, não seria mais adequado acabar de uma vez com a figura do docente temporário e implementar políticas sistemáticas de aperfeiçoamento profissional no lugar de contaminar o clima escolar com atitudes pouco respeitosas e discriminatórias?
Estas e outras medidas compõem o Programa + Qualidade na Escola do Estado de São Paulo que, lamentavelmente, mais uma vez desqualifica a imagem do professor. Como pretender assim que os jovens nos respeitem?
Nora Krawczyk é Professora Doutora da Faculdade de Educação/Unicamp, coordenadora do Grupo de Pesquisa Políticas Públicas e Educação (GPPE) na Pós-Graduação da Faculdade de Educação/Unicamp, Pesquisadora do CNPq, co-autora, entre outros livros de “A Reforma Educacional na América Latina nos anos 90: Argentina, Brasil, Chile e México”, editora Xamã, 2008.
16 de maio de 2009
Revista Nova Ex-Cola

Charge de Arnaldo Martinez
18 de abril de 2009
José Serra dá ponte no feriado!
Por Arnaldo Martinez, chargista oficial do Sala dos Professores.Zé Serrote agora quer subornar os funcionários públicos para chegar no Planalto, passando por cima de tudo e de todos. Não conte comigo!
3 de abril de 2009
Há bônus que vêm para males

5 de março de 2009
28 de fevereiro de 2009
Computador do Professor - compensa???

Uma das desvantagens de um computador portátil é que não é aconselhável mexer na sua configuração, pois quando ele é aberto, perde a garantia. No último programa de inclusão digital do professor, quando foram liberados R$ 1.000,00 para aquisição de um computador de mesa, o professor podia escolher na loja a configuração que quisesse. O governo dava os mil reais e o professor arcava com o restante, fosse à vista ou por meio de financiamento. Mas escolhia exatamente a configuração que queria. O notebook vem padronizado, não permitindo que se escolha um processador melhor ou uma maior capacidade de memória, por exemplo.
As empresas escolhidas que venceram as licitações foram a Positivo Informática e a Brasoftware, que fornecerão, respectivamente, o hardware e o software. E, sim, vocês só ouvirão falar mal da Positivo.
25 de fevereiro de 2009
Incentivos ao Professor

Daqui a pouco vai ser hora de a Secretária aparecer na televisão para falar que está incentivando o professor a se aperfeiçoar (até porque o assunto da provinha dos ACTs vai voltar à baila). Então dessa vez vou me antecipar e já deixar a pergunta: dá pra chamar de incentivo uma bolsa de mestrado de 790 reais? E com uma lista de exigências maior que a capivara do Maluf?! Detalhe que descobri recentemente: o projeto de pesquisa deve ser “dirigido especificamente para o desenvolvimento de metodologias de ensino e aprendizagem e incluído nas linhas de pesquisa definidas pela Secretaria da Educação”. Ou seja, como sempre, o professor só tem o direito de entrar na linha, mesmo.
9 de fevereiro de 2009
A palhaçada continua
Fui aprovado no concurso de 2003, mas só fui chamado a assumir as aulas em agosto de 2004. Nessa ocasião o sindicato também se organizava para exigir que os candidatos aprovados só ingressassem no início do ano seguinte, pois o ingresso no meio do ano prejudicaria o desempenho dos alunos e a vida dos professores temporários que já tinham assumido tais aulas e blablablá. Mas ninguém se lembrou de exigir que fôssemos chamados já no início de 2004… E ainda queriam que apoiássemos a luta! Foi meu primeiro contato com a APEOESP, e essa primeira impressão justifica o fato de eu nunca ter me filiado ao sindicato.
Que fique bem claro: eu critiquei a provinha pontualmente, primeiro porque não teve o valor de um concurso para efetivação, depois porque foi elaborada com base no material implementado no ano passado, que é uma porcaria, e por fim porque é incoerente cobrar conhecimento do professor quando não se oferece a ele condições para sua formação continuada. As videoconferências sobre o novo material, por exemplo, só foram oferecidas no final do ano, e ainda assim só para alguns poucos professores! Mas não sou contra a avaliação em si mesma. Ela ainda é o único mecanismo para garantir um mínimo de qualidade no ensino público.
2 de fevereiro de 2009
Primeiro ataque tucano do ano!
Segundo dados da Secretaria, 212 mil pessoas fizeram a prova, e terão aulas atribuídas após os 130 mil professores efetivos da rede. Os professores temporários não serão efetivados, embora já somem 62% do total dos docentes da rede estadual, e não há previsão de concurso, nem para disciplinas cujo último concurso foi há mais de 4 anos (prazo máximo de validade estabelecido pelo artigo 14 do Estatuto do Magistério).
A Secretaria divulgou incorretamente as datas das atribuições, que seriam de 2 a 5 de fevereiro para os efetivos e de 5 a 10 para os temporários, mas na verdade começaram no dia 30 (fazendo os efetivos perderem o último final de semana das férias!). Lembrando que a partir deste ano quem optou pela possibilidade de substituição com base no artigo 22 do Estatuto supra está impedido de pegar carga suplementar!!! Primeiro ataque tucano do ano! E não esperem que algum Obama olhe por nós…
23 de janeiro de 2009
Aí, não falei?
Particularmente, sou favorável a uma avaliação que visasse à efetivação de professores que já trabalham a longo tempo na rede e que, ao mesmo tempo, facilitasse o ingresso de novos professores, impedindo que se atribuíssem todas as aulas para aqueles com mais tempo de exercício. Afinal, por que é que, mesmo para os professores efetivos, as notas obtidas nos concursos de provimento de cargo não são computadas como pontos para as atribuições de aulas? As notas do concurso não valem absolutamente nada nessa hora! Não digo que os professores mais velhos não devam ter seus privilégios, mas tampouco é justo que o tempo de exercício se sobreponha totalmente à capacidade demonstrada na avaliação.
O ponto mais criticável da “provinha” não era o desprestígio dos professores “mais antigos”. Estes já estão mais que desprestigiados a partir do momento em que não têm as condições mínimas de aperfeiçoamento que lhes permitiriam ser efetivados (o que, convenhamos, também não seria mais que sua obrigação, em condições normais). Realmente lamentável é que a avaliação não visava efetivar os professores temporários, nem garantir a eles qualquer melhoria nas condições de trabalho. Seja como for, a “provinha” apresentava um ponto positivo: sem desconsiderar o tempo de exercício dos professores “mais antigos”, conferiria uma pontuação extra aos mais capacitados, o que facilitaria o acesso dos professores mais jovens, equiparando-os aos primeiros.
Para o sindicato dos professores, que nunca mostrou qualquer preocupação com aqueles que estão tentando ingressar no magistério, esse foi seu presente de Natal. Enquanto isso, os ingressantes continuarão lá no final da fila, sem motivo nenhum para festejar. Os professores mais competentes continuarão sem nenhum reconhecimento e o nosso dinheiro continuará descendo para o esgoto. Feliz 2009!
14 de dezembro de 2008
Mais dinheiro pelo ralo

A primeira dúvida levantada pela maioria dos professores, depois de um ano de sucessivas perdas sofridas pela categoria, é a razão de se investir em material destinado aos alunos em vez de melhorar as condições gerais da escola ou os vencimentos dos professores. Realmente, de nada adianta investir centenas de milhões de reais em livros que depois acabam não sendo utilizados, ou então sendo mal utilizados, por conta da obrigatoriedade de se seguir à risca os mal elaborados “Cadernos do Professor”, outro enorme dispêndio de recursos públicos. Foi o que aconteceu aos livros didáticos distribuídos no início deste ano.
Depois, fica a questão de se o estímulo à leitura possa ser dado pela simples posse de alguns volumes, quando as bibliotecas continuam abarrotadas de excelentes títulos, tanto das literaturas de Língua Portuguesa quanto da Literatura Universal, em ótimas traduções. E não se diga que muitas escolas não dispõem de bibliotecas, pois o dinheiro investido nesses exemplares a serem doados aos alunos seria mais que suficiente para pelo menos dar início a uma boa coleção nessas Unidades Escolares.
Finalmente, se a nossa tão bem informada secretária, que tanto aprecia estatísticas e estudos internacionais, tivesse simplesmente lido um livro intitulado Freakonomics, do economista estadunidense Steven Levitt, saberia que, ao contrário do que pensa o senso comum, iniciativas como essa, que também foram implementadas nos EUA, não influenciam no rendimento escolar.
É importante não confundir causalidade e correlação. Já escrevi sobre isso no meu artigo Entre alhos e bugalhos. De fato, constatou-se uma correlação entre ter muitos livros em casa e apresentar boas notas no boletim, mas isso não significa que haja um nexo causal entre os dois fatores. Pelo mesmo método estatístico, constatou-se que crianças com poucos livros em casa, mas que frequentavam bibliotecas e museus, ainda tinham notas mais baixas que aquelas que possuíam livros mas que não tinham o hábito da leitura. Como se explica isso? A hipótese de Levitt é a de que a mera posse de livros não é uma causa, mas apenas um indício de pais mais intelectualizados, que passariam aos seus descendentes seu nível mais elevado de QI. Em outras palavras, o programa de distribuição de livros aos alunos não surtiu os efeitos esperados simplesmente porque a inteligência é o resultado de fatores preponderantemente genéticos.
Pode ser difícil aos profissionais da educação admitirem isso, pois equivale a diminuir sua importância na formação dos jovens. Apesar disso, essa é a realidade revelada pelos dados – pelo menos a realidade norte-americana. É preciso muito tato ao interpretar dados estatísticos, especialmente quando relacionamos características supostamente fenotípicas (quer dizer, geradas por fatores genéticos). Se a explicação de Levitt estiver correta, nenhum professor, por melhor que seja, poderá transformar uma criança de parcos recursos hereditários em um gênio. Mas isso não significa que, aos favorecidos geneticamente, bastem suas fitas de ácido desoxirribonucléico para resolver uma equação de segundo grau ou para descobrir os encantos dos olhos de ressaca de Capitu. Os fatores genéticos não determinam a inteligência, apenas a possibilitam. E é aí que o professor se mostra indispensável.
Ora, onde é que o estado pode interferir para otimizar o “processo de ensino-aprendizagem”? Interferir na seleção natural dos melhores grupos genéticos é possível por meios de controle complicados, dispendiosos e de muito longo prazo – chama-se eugenia, e foi prática comum dos nazistas. Apesar do rótulo negativo, não sou contra ela, em princípio (o que não significa que eu concorde com o uso que os nazistas acabaram por fazer dela!). A outra ponta do processo termina na sala de aula. É ali que o estado pode interferir mais diretamente, dando aos professores e alunos melhores condições materiais. Isso inclui, é claro, escolas bem aparelhadas, com bibliotecas, laboratórios de ciências e de informática, equipamentos adequados para Educação Física etc. Mas começa antes disso, com professores bem preparados, satisfeitos com sua profissão, que disponham de tempo livre e de recursos financeiros para investir em seu aperfeiçoamento contínuo. Aí então faria sentido qualquer tipo de cobrança intelectual ao corpo docente da rede pública.
A política tucana é bem outra. Propõe o ensino de esgrima (!) nas aulas de Educação Física, com espadas… de jornal. Mantém a classe docente frustrada com seus baixos salários e péssimas condições de trabalho, e aí exige que prestem uma prova para poder continuar lecionando no próximo ano. A provinha (sim, ela já é chamada no diminutivo pelos corredores) é só mais uma forma de jogar dinheiro fora, porque não evitará o grande contingente de professores temporários que continuará atuando na rede. Eles nem serão efetivados, nem terão condições de se aperfeiçoarem. A não ser que a dona Maria Helena considere um grande aperfeiçoamento ler sua Proposta Curricular, que é a única matéria que vai cair na provinha.
O pior é que já estamos acostumados a esse esbanjamento de recursos públicos. O exemplo mais recente foi a aplicação de outra provinha, o Saresp. Parece que o Estado de São Paulo não dispõe de uma instituição competente para uma prova desse nível, porque recorreu à não menos incompetente Fundação Cesgranrio, que, depois de sofrer o revertério de ter as provas inutilizadas pela chuva (!), não tendo conseguido, tampouco, número suficiente de inscritos para aplicá-las (já que, para total isenção, exigia-se que os aplicadores não pertencessem ao quadro do magistério), resolveu transformar essas pessoas em “monitores”, que receberam quase um salário mínimo por apenas dois dias sem fazer absolutamente nada, enquanto professores efetivos foram designados para aplicar as provas, mesmo fora dos seus horários de aula, sem receber nada por isso! Caso mais recente, mas certamente não o último. Podem esperar para ver só aonde vão parar os 5 bilhõezinhos arrecadados com a estapafúrdia e ridícula privatização do banco Caixa Nostra.
14 de novembro de 2008
A realidade sobre a sala de aula
http://video.globo.com/Videos/Player/Noticias/0,,GIM911235-7823-SEIS+ALUNOS+SAO+IDENTIFICADOS+POR+ATOS+DE+VANDALISMO+EM+ESCOLA+NO+BAIRRO+DO+BELEM,00.html
4 de outubro de 2008
Desabafo de um Aluno
Apenas um desabafo sobre a nossa situação atual.
É sobre o que vocês estão fazendo com o ensino em escolas estaduais daqui de São Paulo. Moro em Ribeirão Preto tenho 18 anos, estou cursando o 3° ano do ensino médio.
Todos os alunos interessados em aprender algo estão insatisfeitos, não por falta de competência dos professores, mais sim pelo sistema de ensino imposto a todos. Os governantes estão vendo como está atrasada a nossa educação e agora estão se preocupando. O futuro do Brasil somos nós, estudantes, e eles estão afundando cada vez mais.
Pedem mais participação dos professores com o aluno, mas não fornecem materiais certos, falta estrutura para o professor, não temos nem onde apresentar um trabalho. Quero que a secretária da educação, ou o próprio governador, venha ver como é uma sala de aula. O professor até tenta, mas os alunos não dão atenção, pois são protegidos do governo, sabem que para o governo o que importa são as presenças, porque as notas não significam nada, querem é um aumento de aprovações. Chega disso, cansamos de nos esforçar e ver que no final esses alunos que deixam tudo de lado também passam de ano! Várias propagandas estão rodando aí na mídia falando que ganhamos materiais e coisas assim. Mentira! Apenas estão cobrindo a nossa realidade. Eu quero uma melhoria no nosso ensino, e muitos querem. Professores até entraram em greve, eu os apóio, porém não chegaram aonde queriam, porque para essa m... de governo o Ensino não é essencial. Como querem um bom futuro para as crianças se eles ainda mantém esse esquema de "Progressão Continuada"? Vejo amigos meus que mal sabem ler e passam de ano para que o governo possa mostrar na TV o índice de aprovação. Pelo amor de Deus, sejamos sinceros, como nós teremos alguma chance no mercado de trabalho com esse nosso ensino? Como pessoas como eu que estão correndo atrás de um sonho, de cursar uma boa faculdade vão ter chance estudando onde ninguém dá a mínima para nós?
Sinceramente eu não sei o que fazer.
Fernando Peracini, formando da E.E. Prof. Dr. Oscar de Moura Lacerda.
É Fernando, não é só você que está perdido. Parece que “lá em cima” também não estão sabendo.
28 de setembro de 2008
Alerta importante
As alucinantes noites dos camicases
Um novo perfil de paciente chega ao consultório dosinfectologistas: jovens com menos de 25 anos que, embalados por álcool e drogas, deixam a camisinhade lado e se contaminam com o HIV
Autora:Adriana Dias Lopes
"Sempre soube da importância da camisinha. Minha mãe insistia para que eu nunca saísse de casa sem ela. Certa vez, na escola, uma professora demonstrou como usar o preservativo. Achei patético. Aquilo não era para mim. No fundo, achava que aids era coisa de gay. Aos 16 anos, no início da minha vida sexual, eu até usava camisinha, com medo de engravidar as meninas. Depois, desencanei por causa da bebida. Sob o efeito da cerveja e do uísque, aí é que a camisinha não saía mesmo do meu bolso. Meus amigos também agem assim. Há três semanas eu descobri que tenho o vírus HIV. É óbvio que eu tomei um susto. Mas agora estou mais tranqüilo. Daqui a uns dias vou começar a tomar o coquetel contra a aids. Sei que terei uma vida normal."
O relato do estudante paulistano A.K., de 21 anos, é aterrador. Impressiona pelo descaso com o sexo seguro e, agora, pelo modo como enfrenta a infecção pelo HIV. Ele não é uma exceção. Rapazes e moças como A.K. se tornaram figuras freqüentes nos consultórios dos grandes infectologistas brasileiros: jovens de classe média, com menos de 25 anos, contaminados pelo vírus da aids em baladas regadas a muito álcool e drogas. "Em 28 anos de consultório, nunca vi tamanho desdém pela proteção sexual", diz Artur Timerman, infectologista do Hospital Albert Einstein, em São Paulo. "E esse descaso é provocado pelo abuso de bebidas alcoólicas e substâncias entorpecentes." Oficialmente, a ocorrência de aids entre os jovens de 13 a 24 anos mantém-se estável nos últimos cinco anos. Eles representam 10% do total de infectados no país a cada ano, o que equivale a cerca de 3.000 casos. "Mas é urgente que essa rapaziada mude de comportamento já", alerta o infectologista David Uip, do Hospital Sírio-Libanês. "Do contrário, prevejo uma explosão da contaminação por HIV entre os jovens." Até recentemente, os portadores do vírus com menos de 25 anos que chegavam ao consultório de Uip eram, no máximo, três por ano. De 2007 para cá, o médico passou a atender, em média, um paciente com o mesmo perfil por mês. "Estou estarrecido com a postura camicase desses garotos", afirma o infectologista.
Em algumas situações, o comportamento irresponsável adquire contornos suicidas. Comum entre os gays americanos desde os anos 90, vem ganhando força no Brasil a prática do bare-backing, em que homossexuais masculinos se expõem voluntariamente ao vírus da aids em relações sem proteção. A expressão barebacking pode ser traduzida como "cavalgada sem sela". Nessa roleta-russa da aids, um portador do HIV é chamado a participar de uma orgia. Ele pode ou não receber dinheiro por isso. Quando é contratado, o valor fica em torno de 3.000 reais. Batizado de "gift" (presente, em inglês), o soropositivo não é identificado. Todos os outros convidados, porém, sabem que na festinha há pelo menos um portador do HIV – e se divertem com o risco de ser infectados. Essa maluquice é protagonizada, em geral, por homens de 16 a 30 anos. Aos 48 anos, R.F. está contaminado há quinze. Já participou de uma dezena de barebackings. Num deles, foi o "presente", mas pediu para ser identificado. "Apesar do lenço vermelho amarrado no braço, o que denunciava o HIV, muitos quiseram ter relações comigo sem camisinha", conta R.F.
Istockphoto.com
Campanha antiaidsCartaz de alerta sobre os riscos oferecidos pelo crystal, droga muito disseminada entre os gays americanos: "Basta uma noite com o crystal para jogar fora anos de sexo seguro"
As drogas que alavancam o comportamento sexual irresponsável – tanto de homossexuais como de heterossexuais – podem ser pesadíssimas. Além da onipresente cocaína, consome-se bastante o chamado special K, um anestésico de cavalo com efeito alucinógeno arrebatador. Outra droga que começa a despontar no Brasil é o crystal. Derivado da anfetamina, ele é muito comum nas festas gays. Nos Estados Unidos, onde o seu uso está amplamente disseminado, o crystal é alvo de campanhas antiaids por favorecer enormemente o sexo sem proteção. Um estudo publicado no Journal of Acquired Immune Deficiency Syndromes mostra que o crystal aumenta em 46% o risco de infecção pelo HIV. O álcool, por sua vez, quando consumido em excesso, quintuplica a probabilidade de um jovem fazer sexo sem proteção. Com a palavra a gaúcha C.A., secretária de 28 anos:
"O abuso de bebida na adolescência me levou a ter aids. Quando completei 18 anos, conheci um cara que adorava beber e eu passei a acompanhá-lo nas bebedeiras. A partir do nosso terceiro encontro, abandonei o preservativo. O álcool distorcia a minha visão da realidade. Dois meses depois do início do relacionamento, nós nos separamos. Sete anos mais tarde, por causa de uma febre alta que não cedia, descobri que estava com aids. Desconfio que peguei a doença daquele namorado. Mas não tenho certeza porque depois dele voltei a fazer sexo sem proteção. Infelizmente, existe a possibilidade de eu ter infectado outras pessoas sem saber".
Um estudo conduzido pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo revela que 44% dos brasileiros recém-diagnosticados com HIV (14.000 pessoas ao ano, segundo as estatísticas oficiais) só descobrem a infecção com a manifestação dos primeiros sintomas da doença, como aconteceu com a secretária C.A. Em média, da infecção aos primeiros sinais da doença transcorrem sete anos. Ou seja, ao longo de todo esse período, homens e mulheres infectados podem pôr a vida de outras pessoas em risco – além da sua própria. Graças à evolução dos coquetéis de remédios, os jovens de hoje formam a primeira geração que não presenciou a devastação causada pelo HIV nos anos 80. "Para essa juventude, a aids parece ser uma realidade distante", diz o sanitarista Alexandre Grangeiro, coordenador do trabalho da USP. "Além disso, como os retrovirais estão mais eficazes, os jovens superestimam os efeitos dos medicamentos e acreditam que podem tratar a aids como um mal crônico qualquer." De fato, tais remédios têm tudo para garantir uma longa vida ao jovem A.K., o estudante de 21 anos que acaba de se descobrir portador do HIV. A "normalidade" que ele imagina, no entanto, é uma ilusão. Apesar de todos os progressos na área farmacêutica, conviver com o HIV não é tão simples assim. Os remédios só fazem efeito se tomados à risca, apresentam efeitos colaterais desagradáveis e a quantidade pode chegar a nove comprimidos diários. O melhor é não ter de tomá-los. Muito melhor é ter responsabilidade.
Fonte:http://veja.abril.uol.com.br/011008/p_096.shtml
30 de agosto de 2008
Reflexão sobre o Idesp e o Saresp - bem-vindos ao País das Maravilhas!

Para infelicidade geral da nação, a política educacional em nosso país é muito mais política que educacional. A política estadual tucana e a federal petista se revestem ambas de caráter tecnicista, mas a divergência gritante entre elas mostra que pelo menos uma das duas tem de estar errada. Quando a república era presidida por tucanos, aprovou-se a lei que permitia, mas não obrigava, a implementação do Sistema de Ciclos de Aprendizagem, mais conhecido como Progressão Continuada, ideia que foi imediatamente abraçada pelos Estados de São Paulo e Minas Gerais, também governados por aquelas aves. E não o fizeram por uma razão pedagógica, mas sim administrativa: é patente que o aumento do fluxo de alunos diminui os custos da educação. Mas tudo leva a crer que a relação custo/benefício não tenha sido bem calculada, ou sequer levada em conta.
Depois que a esquerda light tomou o poder federal, a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo vem sistematicamente se contrapondo a todas as políticas do Ministério. Recorreu até onde pôde para não aderir à implantação da Sociologia na sua rede, e essa implantação, prevista para o próximo ano, ainda é bastante duvidosa. Sustenta com unhas e dentes que o número de alunos por sala não tem relação direta com a qualidade do aprendizado, enquanto o MEC fecha cursos de Direito pelo país sob a alegação de que suas salas superlotadas comprometem a formação dos alunos. Contrapõe-se à recente lei proposta pelo senador Cristovam Buarque que estabelece o piso salarial do professor e aumenta seu tempo para atividades extra-sala, alegando falta de recursos para a implementação do projeto no Estado mais rico do país. E contrariando a política do governo Lula, que pretende aumentar os recursos das escolas com maiores dificuldades a fim de diminuir a desigualdade de condições, implanta agora sua política de bonificação às escolas em função do desempenho, o que acentuará ainda mais a discrepância entre as escolas “boas” e as “ruins”.
As escolas “boas” são, claro, aquelas mais centralizadas, que selecionam seus alunos como lhes apraz, rejeitando os demais por falta de vagas, os quais são obrigados a debandar para as escolas “ruins”, isto é, as da periferia, onde os problemas já são bem conhecidos. A Secretaria pretende agora esquecer definitivamente essas escolas e concentrar os recursos de que dispõe nas escolas “boas”. Essa política seria muito bem-vinda se a intenção fosse explicitamente a de criar centros de excelência no seio do ensino público; mas não se o que queremos é uma educação de qualidade para todos.
Agora vejamos como esses recursos serão distribuídos na prática, e o que as escolas farão para não perdê-los. As escolas serão avaliadas pelo Idesp, que varia de 0 a 10 e é calculado pelo desempenho dos alunos no Saresp, numa escala de 0 a 3 pontos, e pelo fluxo (taxa de aprovação) de alunos, de 0 a 1 ponto. Atualmente, as taxas de reprovação são ínfimas em qualquer escola da rede pública. O que ocorre em muitas delas, especialmente nas periféricas, é o expressivo número de alunos desistentes, que, nas planilhas da dona Maria Helena Guimarães de Castro, são contabilizados como alunos retidos. Evidentemente, além da já grande pressão para não reprovar nenhum aluno, as escolas farão todo o possível agora para, pelo menos, emitir declarações de transferência aos alunos desistentes, fazendo com que não sejam mais computados como taxa de retenção. Isso não será muito difícil, já que não se exige mais uma declaração de vaga de outro estabelecimento para a emissão da transferência. É bem provável que passem a ocorrer até fraudes nesse sentido, já que tudo o que a Unidade Escolar necessita é da assinatura de um responsável, e visto que não é difícil falsificar o rabisco de um semi-analfabeto.
Quanto ao primeiro critério, é preciso observar que o péssimo desempenho de muitas escolas não se dá apenas porque os alunos não conseguem responder às questões do Saresp, mas também porque não têm o menor interesse em fazê-lo. A grande maioria dos alunos simplesmente não comparece à escola nos dias de avaliação, e cansei de ver alunos que, embora tenham comparecido, tiveram preguiça de ler os enunciados e preferiram apenas “chutar” as respostas para terminar mais rápido e ir embora. E agora, o bônus do professor dependerá desses alunos que pouco se importam com sua escola. Estamos em boas mãos.
Seja como for, a Secretária talvez tenha razão em afirmar que as metas estabelecidas para cada escola em função do seu desempenho não são inatingíveis. Se ela estiver certa, é bem provável que as escolas possam atingi-las apenas fazendo com que sua clientela compareça em peso ao Saresp. Isso já elevaria bastante o desempenho geral da Unidade Escolar, sem que a qualidade do ensino tenha de aumentar em nada. Bastaria pressionar os alunos, dizendo, por exemplo, que se não comparecerem não receberão seus certificados ao final do ano (no caso dos formandos do Ensino Médio). É, pelo menos num primeiro momento, a saída mais óbvia para quem tem de se submeter a um sistema que privilegia a maquiagem de dados estatísticos. E sejam todos bem-vindos ao País das Maravilhas!
22 de agosto de 2008
A Semente Errada
Essa liberdade com que estão tentando acabar era o que mais se assemelhava à verdadeira prática de ensinar e aprender por gosto, não por cobrança e imposição para se destacar em estatísticas oficiais; era a que mais lembrava, talvez, os grandes pensadores que, reunidos por afinidade, discutiam aquilo em que tinham interesse e com isso existia um prazer mútuo no processo educacional.
Agora, as influências do neoliberalismo pedem passagem: o importante é quantificar. Notas altas, estatísticas aceitáveis e padronizadas por aqueles que impõem uma maneira de pensar, números, tudo isso com a explícita intenção de promover o cálculo e a leitura. O raciocínio que liberta e que questiona as políticas públicas, que faz generalizações mais requintadas, não são prioridade para a massa.
Num mundo onde a disputa gera guerras, corrupção e mortes, ouvimos discursos atormentados de que devemos premiar os bons professores. O que seria um bom professor? Aquele que obedece? Aquele que aceita? Ou que não tem voz ativa? O que não tem vez? Aquele que está devendo no especial com um mísero salário de aproximadamente três mínimos paulistas? Ah! Não sei se é bom ser bom professor. Será que o mundo está invertido? Como não considerar um professor que conversa sobre o final de semana, tão real e decisivo para a vida do aluno e do professor, que conversa de gente para gente, em que os dados mais significativos são o sentir, o contato entre seres humanos, a troca de experiências entre pessoas com pontos de vistas e vivências diferentes, que produz as maiores dádivas da humanidade, o verdadeiro saber com dons de aprendizagem própria sem a imposição de uma instituição que representa a ideologia de uma classe?
Estão nos roubando isso! Quando educadores de gabinete falam que professores não querem trabalhar, isso me assusta. Nós, heróis de lousa e giz, de enfrentar sem medo classes cheias, sendo que muitas delas com alunos provenientes de situações sociais trágicas, sofrendo agressões e, apesar de tudo, com uma ternura inexplicável e inintelegível que é capaz de despertar nos alunos algum interesse pela vida, vida essa de que ele está prestes a desistir!
A educação é um processo dos mais complicados, em que estão envolvidos professores, coordenadores, diretores, secretários, famílias, sociedade em geral, a idiossincrasia dos alunos e a legislação. Culpar apenas um dos envolvidos é incoerência. É desconhecimento de causa. É coisa de quem não está na sala de aula.
Acreditamos que a melhora tem que vir. Não temos todos os meios infalíveis para isso, escapa de nossa capacidade ditar sozinho o que é melhor. Temos consciência de que preservar as poucas coisas boas da escola pública é interessante, de que ter um conteúdo em comum para trabalhar também é, porém tolher a liberdade de conduzir o processo de ensino aprendizagem não é bom. Nesse discurso de aprender a aprender por que o alto escalão da educação não tenta aprender um pouco com quem está na sala de aula? Será que não merecemos crédito?
O solo pode até estar fértil para se semear coisas boas, mas jogaram a semente errada.

Alexandre de Freitas é professor de Geografia na rede estadual de ensino e membro da equipe do blog Sala dos Professores.




